sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

DOIS >> Leonardo Marona

"metamorfina"

agora que invento teus olhos
agora que sei que és de outro
penso: sendo assim és minha
porque eu sou outro em mim.

agora sou não doente de sim
escorado em planos secretos
concretizados na perspectiva
da tua foto sobre a cabeceira.

agora a hora agoura a agonia,
outro em mim tão eu sozinho
acomodou tua falta no escuro.

sinto que perdi meu rastro em ti
indo levaste o outro que em mim
sendo teu não, conhecia meu sim.

***X***

"laços de bronze"

pai...
quando vi os olhos de bronze
de Drummond e Mário Quintana
num banco da Praça da Alfândega
ouvi sinos – talvez de uma igreja
e me lembrei de um domingo
quando engolimos calados nossa ceia
porque afinal era domingo de natal
e depois, já na rua, lembrei também
que estávamos bêbados e sentimentais
e você falou comigo através de ombros
sobre um texto meu que tinha lido
sobre você e sobre seu próprio pai.

e me lembrei que você enxugava os olhos quando voltei do banheiro
e comemos arroz amarelo com tempero indiano e peixe ao sal grosso
e que o garçom te conhecia pelo nome, o que me deixou feliz.
lembrei de tudo atravessando a praça sob olhos de bronze,
inclusive daquelas frases silenciadas por soluços de fome
e, além destas, coisas tão importantes quanto pequenas,
quanto o silêncio que as cobriu de pó sobre nosso baú.
lembrei também de como estou longe agora
do abraço que nunca te dei conforme os braços tremiam
porque queria um abraço mais longo do que a verdade.
lembrei também de que quando saímos do restaurante
– bêbados e sentimentais, assobiando uma canção antiga italiana
para que palavras indefinidas não estragassem o momento mágico –
passamos por um sinal vermelho por volta da meia-noite de natal
e um menino de rua se aproximou com um pacote de balas e lágrimas negras
e você deu a ele uma nota de 50 reais e então fomos embora em silêncio
como se estivéssemos ambos envergonhados por não ter feito algo melhor.

então chorei no meio da praça
(eu a criança que cavou a esperança na calçada)
como se fosse eu mesmo aquele menino de rua
que olhava pela janela do carro
duas pessoas que se amavam
sem saber como lidar com isso
a não ser de forma natural,
o que significa deixar o saber de lado.
e sei que Drummond talvez julgasse isso mal
e que talvez Quintana preferisse falar de sapatos,
mas foi preciso escrever isso para adocicar meus passos,
pois meus olhos tentam burlar tua falta mas ardem como sal,
pai...


http://www.omarona.blogspot.com/

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5 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Léo, gosto MUITO dos seus textos sobre "pai".

Rose disse...

Leo, é muito bom ler o que voce escreve, me comove sempre. O texto Pai, é uma pérola.

Marisa Nascimento disse...

Léo, quando você escreve prosa é supreendente. Com poesia, consegue se superar. Sua participação de hoje é arte transbordante.:)

Marisa Nascimento disse...

Agora que vi que, pela primeira vez, chamei você de Léo e não de Leonardo. Foi natural...

leonardo marona disse...

então já posso te considerar amiga, se bem que meu pai me chama "leonardo" e é também amigo. chame-me "le despoir". ehehehe..

um beijo marisa, rose, minha querida, e, edu, a gente fazemos o que pudemos.

até.