domingo, 7 de dezembro de 2008

LEITORA >> Eduardo Loureiro Jr.

Robin Bartholick/CorbisEu estou aqui. Sentado diante de uma tela que começo a preencher com palavras. Você está aí, com as palavras todas à sua frente. Se o tempo desse um descanso em sua mania de passar, você poderia me contar o que eu ainda nem sei que escrevi.

Então vamos inverter os papéis. Eu saio da frente do computador agora, me visto e desço até o jardim. Você me encontra lá, me dá um abraço — se já formos velhos conhecidos — ou então nos apresentamos ("Prazer, sou Eduardo.") e começamos a caminhar.

Enquanto nossos passos se acertam com uma música imaginária — ou mesmo real, "oh, darling, darling, stand by me" — você vai me contando a crônica que eu já — e nem ainda — escrevi.

Para aumentar minha curiosidade, você não começará falando da crônica em si. Falará de como chegou até ela clicando sobre um link do Google — ou de como espera por ela toda tarde de domingo. E depois dirá o que sente, como se sente. Falará das surpresas, dos encantos e das decepções (por que não?).

À beira de um outro jardim, você me chamará para conhecer o cheiro de uma flor que antes, para mim, só tinha cor. E me confessará que eu sou diferente do que faço transparecer na crônica. Se soprar um vento de sinceridade, você dirá mesmo que sou um tanto sem graça e que não sabe como de mim surgiram aquelas palavras tão bem ditas. Eu abrirei meu sorriso feito só de lábios — sem ousar mostrar os dentes — e você saberá que eu sei que você está certa.

— De onde vêm as palavras?
— Eu não sei.
— Mas você é um escritor!
— Eu me sinto mais como um leitor de primeira mão.

E você ficará pensando no que isso quer dizer. E, sinceramente, isso não quer dizer nada. E eu vou me lembrar da famosa carta aos coríntios: línguas e ciências desaparecerão, mas o amor... ah, o amor.

Você respirará fundo, e eu lhe olharei fundo. Você não terá mais vontade de falar sobre a crônica que escrevi, e eu não terei mais vontade de ouvir sobre a crônica que vou escrever. Ela já está escrita e eu só preciso de coragem para atravessar o rio às vezes turvo da memória.

Nós sentaremos à sombra daquela árvore que chove pequenas pétalas lilases, e nossos cabelos ficarão molhados de cor. Eu encostarei no tronco, você encostará em mim e meus dedos tocarão seu corpo como nunca tocaram nenhum teclado.

Adormeceremos ouvindo uma animada conversa de passarinhos, e sonharemos que as plantas e os bichos são gente e que nós somos leves feito o vento.

Quando acordarmos, você me procurará e eu lhe procurarei, mas não estaremos ao lado um do outro. E antes que a sempre ilusória tristeza se faça passar por verdade, você saberei, eu saberá que desde o sono somos um. Não mais ao lado, agora alados, asas de um outro ser.



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15 comentários:

Juliêta Barbosa disse...

“Se o tempo desse um descanso em sua mania de passar, você poderia me contar o que eu ainda nem sei que escrevi.”

Eduardo,
O que eu sei é que ainda sou uma criança, pois tenho a idade dos meus sonhos e esses não acabam nunca. E são tantos que eu, menina, esqueci de virar gente grande. E não sendo gente grande, posso dizer-lhe com a pureza da minha alma infantil: Eduardo, você faz amor com as palavras e o êxtase que elas provocam, arrebata a alma num gozo etéreo.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato, Juliêta, pelas extáticas palavras de sua alma infantil. :)

Anônimo disse...

Espero você toda segunda pela manhã... hoje conheci sua voz, não conheço o gosto da sua boca mas acho que estou me apaixonando por você...

Marisa Nascimento disse...

Eduardo, "escreler" é o verbo capaz de me fazer retornar renovada depois de tentar, em vão, enxugar um pouco da tristeza e da tragédia dos vizinhos de região. A tristeza invadiu meu coração de uma forma tão intensa que vir aqui partilhar alegrias me pareceu contraditório...Mas isso é outro tema!
Qundo você escreve, suas palavras voam para seus leitores, porém você nao consegue ter a concreta percepção de quantas almas serão alcançadas(e são tantas...). O leitor que aqui chega, não vai embora sozinho. Quando se despede, sua alma está preenchida das palavras do escritor e ele já não se sente só. Acredita que você já é parte dele, seja como amigo, como irmão ou amante.
Mais uma vez, Eduardo, você foi perfeito!

Anônimo disse...

ô "João" do meu coração... vc me faz sonhar mais do que já sou... e eu adoro isso!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Primeira Anônima, tem uma hora em que a gente fica corado e sem palavras. :) E é agora.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Marisa, quando a tristeza me assalta e me faz sentir criança pequena num mundo tão grande, gosto de lembrar das palavras luminosas de um sábio que disse, certa vez, "nem tudo é o que parece, e não há injustiça". Veja se conseguem trazer algum conforto pra você. // Com seu "escreler", você conseguiu definir o que tenho feito, o que tenho escrito, há mais de um ano. Grato por revelar o ato que me faz sentir um "leitor de primeira mão". // E devo dizer, ainda, que mesmo inconsciente do impacto de minhas palavras nos outros, é também de amizade, fraternidade e amor o impacto delas em mim.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

João?! Ah, lá vou eu nos caminhos da adivinhação de novo, segunda Anônima... :) Eu adoro o seu sonhar.

Ana disse...

Fiquei sem palavras...
bjs
Ana

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ana, é uma honra deixar uma de minhas escritoras favoritas sem palavras. Mas trate de recuperar as palavras até amanhã: ler sua crônica de quinta-feira já se tornou um delicioso hábito para mim. :)

Carla Dias disse...

Eduardo,
Achei no mínimo deslumbrante essa idéia de colocar presente e futuro frente a frente; de namorar possíveis encontros entre quem escreve e quem lê. Emendar histórias... Ir além com a graça que, sempre, lhe é grata.

cArLa disse...

Caro Eduardo,
Obrigada pelo passeio. Obrigada pelas asas. Obrigada por me deixar fazer parte desta crônica-momento.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, por que será que quase sempre que a gente não tem a mínima idéia do que escrever acaba saindo alguma coisa com que as pessoas se deslumbram? :) Sou grato à graça.

cArLa, que bom que você veio ser parte, passeio e asas. :)

Anônimo disse...

Fiquei impressionada com o que você escreve. Eu gosto destas estorias que começam com um pensamento ou uma ação silenciosa e depois termina como sussurro no ouvido. Acredito que o romantismo não morreu e um amor com historia sempre prende a atenção de quem esta vivendo, de quem esta vendo e de quem esta ouvindo!! E.... Imaginar é tudo de bom.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato, Anônima. Continuemos imaginando então...