sábado, 20 de dezembro de 2008

O PRESENTE DE NOEL [Maria Rita Lemos]

Uma chuva miúda começou a cair, quando José distribuiu as últimas balas da sacola a crianças sonolentas, cansadas da confusão e da mistura de sons, naquela noite de véspera de Natal.

Pelo movimento da rua, que foi diminuindo de repente, José calculou que passava das dez horas. A chuva caía fininha, e ele só pensava em chegar à sua casa, na periferia, a tempo de levar alguma coisa para as crianças. Se os filhos estiverem acordados, José pensava, abririam hoje mesmo o carrinho e a boneca que conseguiu comprar para eles, além do panetone e da tubaína. Só restaria comprar um frango assado para o almoço de amanhã, e estaria tudo certo, o resto das coisas gostosas da cesta de Natal que ganhou da loja ficaria para o Ano Novo, porque o emprego de Papai Noel acabou esta noite. Amanhã será outro dia. Amanhã...

Felizmente, deu certo esse emprego temporário de Papai Noel que conseguiu no grande magazine; deu para tirar um troquinho, porque, agora, ele não podia se esquecer de que era mais um brasileiro desempregado. E tinha também uma boquinha a mais em casa, que no começo do mês nasceu a caçulinha Daiane, e os dois mais velhos tinham que continuar a comer. Além do mais, no Ano Novo iria ter material escolar para providenciar; a dona da casa a quem ele pagava aluguel, por sua vez, não ia querer saber se José tinha sido demitido.

Então ele se lembrou: o pior é que fora dispensado logo no comecinho do mês, pouco depois de nascer Daiane. Depois de doze anos como soldador daquela empresa, nem doze minutos foram precisos para que, de repente, lhe mostrassem a porta da rua, ele e mais dezoito companheiros. Redução de custos, disseram, corte de funcionários mais antigos.

De repente, ele se lembrou do pedacinho do poema de Drummond, que aprendeu na escola e gravou um pedacinho, por causa de seu nome: “... e agora, José? A festa acabou, o povo sumiu, a luz apagou, e agora, José?...”

Agora é enxugar o rosto, tirar essa roupa calorenta, o capuz e a barba, que o linha quatro vai passar daqui a pouco e ele não pode perder... ou já teria perdido o ônibus para casa?

José correu ao vestiário, trocou a fantasia de Noel por sua calça de brim e a camisa que ganhou da mulher no aniversário. Tadinha da Cida, ficou tão preocupada com o desemprego... foi graças ao anúncio que ela leu, na casa onde fazia faxina, que ele soube daquele 'bico' de Papai Noel. Agora a festa pra todo mundo começou, mas a dele acabou. Não adianta chorar pelo leite derramado, José pensou, enquanto as lojas iam fechando, uma a uma, e o centro da cidade ia ficando deserto, a não ser pelos bêbados e prostitutas. Assim mesmo, até eles eram poucos na rua nessa noite.

José encarou a chuva, e soube no ponto que seu ônibus já passara - e nem pararia, estava lotado. O negócio é ir a pé, na chuva fria e fina. No caminho, na Catedral toda iluminada, já tinha começado a Missa do Galo. José entrou, por falta do que fazer, e ficou olhando para o presépio, aquele menino de sempre, de todos os anos, meio encardido já, mas os olhos continuavam brilhando... E as pessoas continuavam ao redor dele, rezando, rezando. José ajoelhou e pediu um emprego. Duvidava que o Menino fosse atender, ainda mais antes do Ano Novo, mas pediu, e ficou quieto, esperando. No altar, o coro cantava alegremente: 'Nada é impossível se em Deus a fé tu tens'... será?

José saiu da igreja. Apertou o passo, a chuva já não era tão miúda. Caminhava depressa, pensando nas fichas de emprego que preenchera nas últimas semanas... nem uma resposta, nada...

Abriu o portão e seu cão o saudou, alegre. Não sabia que era Natal, que era aniversário de Jesus, nem sabia do desemprego de seu dono.

José entrou na cozinha humilde e viu que todos dormiam: Cida e Daiane, a filha bebê, estavam no sofá, cochilando na frente da TV, que mostrava a Missa do Galo - em Roma talvez. As crianças maiores estavam na cama.

Em cima da mesa, José achou um envelope, que tinha seu nome... O remetente, no envelope, era da maior firma que ele preencheu ficha para soldador... será? O nome era o seu mesmo, José Donizete de Souza. Era ele. E agora, José? Com as mãos trêmulas, ele abriu a carta. Era isso mesmo. Tinha que comparecer com os documentos no dia 26 às 8 da manhã para o exame médico... Fora admitido como soldador. Não era um grande salário, mas tinha registro e assistência médica, para começar estava maravilhoso.

José olhou para a mulher e a filha adormecidas, deitou a cabeça nos braços, e deixou o choro chegar, pensando no menino do presépio. Como era mesmo a música que eles estavam cantando? “Nada é impossível se em Deus a fé tu tens...” e ele, que nem se sabia capaz de tanta fé, chorou, chorou, até adormecer. Diante da TV ligada, diante de sua mulher e filha. Diante da vida que se abria, linda como uma noiva, para o José que também foi Papai Noel, naquela inesquecível véspera de Natal.

Imagens: Man in Santa Costume Commuting on Subway, Tim Pannell; Nativity, Pascal Deloche

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3 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Maria Rita, esse seu Presente de Noel, lindamente composto, palavra a palavra, foi um presente para todos os leitores. Obrigada por esses momentos de emoção. :)

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Bonita história, Maria.

Ana disse...

Rita,

Simplesmente maravilhoso!!!!!!
Estou orgulhosa de ser sua irmã.

Ana M. Lemos Nielsen