Pular para o conteúdo principal

No trenzinho da alegria >> Ana Coutinho

O programa se chamava Bambalalão e a apresentadora, Gigi. Passava na Cultura, um canal que as crianças da minha época adoravam porque as propagandas eram muito curtas. Eu, como fã da Gigi, não consegui me conter de alegria quando a minha vizinha convidou-me para ir com ela e mais algumas crianças assistir à gravação do programa.

Ver a Gigi de perto? – ou seria Silvana? – eu pulei de alegria.

No dia, éramos umas quatro crianças no carro da vizinha que, embora vivesse num corpo de adulta, parecia uma criança como nós.

Lembro-me da musiquinha que repetia incessantemente: bambalalão, bambalalão, bambalalão, bambalalão - para por fim concluir - bambalalão é o trenzinho da alegria, que carrega todo dia dentro do seu coração. Talvez não fosse isso - hoje não tem importância - a música, naquele dia, estava cravada na minha cabeça e eu não cansava de repeti-la a todo instante.

Lá chegando fomos acomodadas no que seria a platéia, um nível abaixo do palco. Não demorou muito e elas apareceram, cantando – Eu disse elas? Eram duas?

Um mundo de crianças levantou-se e, todos juntos, cantávamos eufóricos, pulando e dançando como as apresentadoras – sim, eram duas.

Se eu fechar os olhos, quase posso ouvir meu coração disparado de emoção dentro daquele pequeno corpo, que já sabia o que era ter um ídolo. Eu, uma menina franzina, sentia-me um gigante naquele pequeno estúdio, misturada a tantas crianças com os mesmos gostos e sonhos que os meus.

No entanto, o passeio não foi só feito de alegria para mim. A coisa começou a complicar quando iniciaram as brincadeiras, que contavam com a participação das crianças. Eu, menina e tola, havia sonhado com isso nas noites anteriores. Iria participar de tais e tais jogos, ganhar um brinde e mandar um beijo pra minha mãe, pro meu pai e pra você. Ensaiei na frente do espelho e tudo. Quando chegou a primeira brincadeira, porém, fui esmagada por uma infinidade de crianças que, muito mais espertas e rápidas do que eu, correram perto do palco e gritaram: “Eu, eu, eu, escolhe eu, Gigi, escolhe eu!” O palco, um nível acima de onde estávamos, ficava infestado daquelas pequenas mãos implorando por um instante de visibilidade. Claro que eu não fui escolhida para a brincadeira. Mas uma das meninas que tinha ido comigo, minha vizinha de porta, parecia ter mais sorte. Robertinha era um ano mais nova do que eu, e muito mais esperta e desinibida. Logo na segunda brincadeira, correu para o palco e agarrou a mão de uma das apresentadoras que, num instante, levou-a para cima, onde ela apareceu triunfante sob os holofotes. Eu, lá debaixo, senti-me absolutamente infeliz, uma profunda fracassada assistindo à vencedora no pódium. Robertinha ganhou o jogo e desceu saltitante com seu presente, exibindo-se para nós. Lembro-me, ainda com dor, que sorri fingindo felicidade, enquanto abracei a minha amiga.

Mais alguns jogos aconteceram, eu corria para perto do palco, juro que tentava gritar como as outras, mas parecia invisível aos olhos das apresentadoras. As crianças que tinham ido comigo pareciam todas milagrosamente iluminadas, subindo ao palco uma a uma, enquanto eu vacilava no andar debaixo. Lá pelas tantas, a minha vizinha adulta me chamou de canto e disse, com muita firmeza: “Kika, presta atenção, você tem que agarrar no braço delas, entendeu? Igual a Robertinha, agarre e grite, eu, sou eu, eu, eu, eu, não pode ficar assim, meio sem-jeito de fazer isso, senão você não vai ser escolhida!” Ela, a minha querida amiga, tinha posto seus olhos em mim e via minha angústia.

Lá fui eu então, na próxima rodada, seguir ordens da minha adulta. Tentei gritar, tentei pegar na mão da Gigi, mas aconteceu em um instante: eu me senti ridícula, fora de propósito gritando aquilo, e tive vergonha. A voz embargou, as mãos não eram tão firmes como as dos outros e minha amiga Robertinha - que se jogou impetuosa na minha frente - foi mais uma vez escolhida. Quase que posso vê-la, hoje ainda, subindo sorridente para o palco, um pé após o outro, impulsionada pelas mãos de fada da Gigi.

O passeio para mim estava encerrado. Sentei-me longe, afastada da multidão, sentindo uma mistura de humilhação, tristeza e vergonha. Eu não era como eles. Eu era mais fraca, infinitamente menos capaz e muitíssimo mais tola. Assisti à vitória da Robertinha ali, do lado de baixo do palco, prendendo os lábios para não chorar.
Nunca me esqueço da volta do programa. Todos esfuziantes com os seus brindes, enquanto eu permanecia calada no banco de trás, sentindo - talvez pela primeira vez na minha vida - como pode ser doloroso sermos, irremediavelmente, quem somos.

Comentários

M disse…
Adoro ler suas crônicas!
Ô, Ana...Eu, justiceira que sou, lendo seu texto, já entrei nele para te erguer e jogar lá em cima do palco, viu? Sacanagem não te escolherem :(
Você consegue envolver seus leitores com muita propriedade! Obrigada por essas viagens deliciosas!
cArLa disse…
Ana,
Senti cada instante da sua dor, reconhecendo minhas próprias catarses infantis na sua.
Que maravilhosa reversão de expectativa: do início radiante até o final melancólico. Eu gosto de finais felizes, mas tenho que admitir que esse final foi perfeito e ironicamente esperançoso, graças à presença do "pode ser".
Anônimo disse…
Oi Ana!
Um primor!
Vc conseguiu expressar o que sempre imaginei que as crianças sentissem ao não serem "escolhidas". Eu pensei nisso muitas vezes. É por isso que no final do programa eu ficava um tempão, falando com elas, dando beijinhos, como se isso pudesse compensá-las de alguma forma por não terem subido ao palco..... Não me recordo de brindes, eu não gostava de dar brindes, pois penso que ir ao palco já era um premio..... Desculpe não ter te escolhido. Se eu pudesse levaria todas para brincar..... mas eram tantas.... Talvez se vc tivesse ido ao palco ficasse satisfeita e aí nunca teria escrito essa cronica linda e comovente.....
Um beijo bem carinhoso.
Gigi Anhelli

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …