quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

GESTAÇÃO >> Carla Dias >>

Aprendi a aninhar nos braços o sonho mais arredio, daqueles que atiçam a inventividade com solicitude; que aninhavam iguarias: fé, tempo, desejo.

O olhar que lhe rogo o acompanhará em vigília, num cuidar de santo não-canonizado, que quer mais é benquerer sem que o aborreçam os limites gerados por puro ócio espiritual. Pois, sim, vivem nos viés da estima a intranqüilidade dos poros. Arrepiam-se os pêlos ao retesar das cordas dos alaúdes. E trafegam mistérios nada castos por entre os fios dos seus cabelos.

A crença me impele a aceitar: o tempo leva tempo. Ele traga nossas fantasias mais anárquicas, transformando-as em fragmentos de uma busca que reconhecemos apenas mais adiante, num quando que, a princípio, julgamos ser tarde demais. E ‘tarde demais’ pode ser apenas um jeito preguiçoso e menos cruel de renegar nossas desistências.

Leve com você um naco da minha simpatia e não desfira a ele a insignificância. A grandiosidade mora numa casa pequena e úmida; a cabeça deitada no ombro da esperança. Vez ou outra, reconhece a si na luz que entra pela fresta, e alimenta sua existência quase sempre solitária. Dá as mãos ao reconhecimento e sai para dar uma volta. Mas sempre volta... Casa pequena e úmida. Solidão.

Aprendi a me entregar aos labirintos nos quais me aventuro. Despida do mapa que indica rotas de fuga, caminho lentamente até chegar no onde, sem pressa; e a encarar o quando sem medo.

Leve um pouco da minha ausência, para que não me esqueça. E um tanto de esquecimento, para que me resgate em pensamento, de vez em quando. Neste momento, meu canto é das cantigas, nessa gestação que dará a luz que avançará aos túneis, às ruas, às salas das casas. A luz das velas, dos holofotes, das estrelas... Do sorriso da menina ao receber um elogio merecido.

Todo belo se dependura no tempo; transforma-se com ele. E requer gestação.



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