sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Pequenas Biografias Não Autorizadas >> Leonardo Marona

“Napoleone di Buonaparte”

foram-se as baionetas imaginárias,
baixaram a meio pau as bandeiras,
deitaram a correr o velho infame.
os heróis acabam sempre nas ilhas,
os verdadeiros impérios do oriente
foram roídos pela decadência, e tu
estás gordo, a riscar velhos mapas.
muitos se dizem você no hospício,
o mundo ainda é o das debilidades
e mendigos provocam ira nas ruas.
precisávamos talvez da tua loucura
para encarar de frente o apodrecido
e remover as manchas da nossa fé.

que constantinoplas foram precisas
para alcançar o centro de si mesmo?
Novo Prometeu, agora bem sentado
atado em uma rocha onde um corvo
lhe rói as entranhas, e ali o homem,
as entranhas da democracia furiosa.
a imaginação faz perder as batalhas,
você disse, e amou, e foi pra guerra.
você tornou incrível nossa verdade,
depois trancafiou o Marquês de Sade,
e quanto não ficou trancafiado em ti,
homem interditado, líder soberano?
o que vem do fogo para o fogo torna.

***

“Lady Day”

nanicos pisaram as gardênias
nascidas da pedra e do suor
e mesmo o solo esmorecido
ajudava a situar a precoce
figura de mulher em que vibra
dor dos séculos, sinos da terra.

entre brancos e pretos, a filha
amante preciosa, pele de visom
sem saber que poucos homens
poderiam ouvir a verdade bruta
sem pasmarem com o derrame
de tanta violência, tanta ternura
como dizia aquele outro poeta
que morreu de acidente e afinal
você tantas vezes quase se foi
que agora me parece fácil falar
assim como de alguém a quem
se pode verdadeiramente amar
por estar morta e por isso dentro
de cada um que por tantas vezes
quase se foi e não sabe onde está.

mas eles fecharam as cortinas
os nanicos que cospem moedas.
mesmo assim ali há uma fresta,
uma luz cansada tremula ainda.

não foi mesmo possível, Billie
corrigir o coração dos homens
escapar ao terror a cada esfinge
mas essa luz cansada é a prova
de que onde houver amor e fome
haverá aquela música de marfim
essa brutal melancolia africana
para lembrar que vivemos muito,
muito pouco, e não temos demais.

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4 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Surpreendente, Léo. Quero mais minibiografias não-autorizadas. :)

Marisa Nascimento disse...

Leonardo, simplesmente perfeito! Assinando junto com o Eduardo, pergunto: Isso foi só o primeiro de muitos capítulos, né? :)

leonardo marona disse...

gente, não sei, até tenho algumas coisas, mas, não sei, veremos, o que eu não quero é que ninguém morra de tédio.

beijo nos meus dois leitores favoritos (e únicos?)

leo.

cesar disse...

Leonardo, me supreendo ao te ler, sempre vem com um domínio do caos, que beira o abismo. correr riscos é estar vivo. te admiro por seu furor.... pequenas bigrafias.....