quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

MAS AGORA EU SEI >> Ana Coutinho >>

Eu ainda me lembro bem daquele dia. Estava frio, mas eu sentia meu corpo suar. Estava nervosa e feliz de uma forma que nunca, nunca mais consegui sentir igual. Lembro de olhar meu namorado ali, no altar, esperando por mim, e ter tido um instante de susto. Ele me olhava com tamanho amor e ternura que meu coração aqueceu-se subitamente.. Lembro-me tão bem, que nem parece fazer já quase 3 anos.

Hoje, assistindo a essa menina que eu fui um dia, tomo outro susto. Como tive coragem? Eu nem conhecia bem aquele rapaz, namorávamos há menos de um ano, onde era que eu estava com a cabeça? Foi uma loucura, um desatino mesmo. E tenho uma sorte do cão de ter sido tão feliz nessa loteria. Porque é, de fato, uma loteria. Mas é hoje que sei disso.

Eu achava que sabia naquele dia. Mas agora é que descobri. Descobri milhares de coisas de lá pra cá.

Eu sabia que não seria só bom. Dizia, entre sorrisos, que sabia que casamento não era só bom, que teríamos dificuldades e tal. Mas eu não sabia do que estava falando. Hoje eu sei. Hoje eu sei que "altos e baixos" não é só uma expressão comum, saída de uma revista de celebridades. "Altos e baixos" é a verdade. São dias de uma enorme alegria e contentamento, e, outros, de uma tristeza e solidão sem precedentes. Eu sabia que teria de aturar muita coisa. Sabia que teria de abrir mão. Mas era só palavra. Hoje eu sei o que é mesmo. Hoje eu sei que abrir mão é uma aporrinhação daquelas, dá muita preguiça, dá raiva, dá até vergonha, mas é tão difícil quanto necessário diante dessa escolha. É uma escolha, eu já sabia. Mas é uma escolha diária, uma escolha que, vez ou outra, te faz hesitar e respirar fundo. Por que foi mesmo que decidi isso? Não é uma pergunta de outra, de um livro ou de uma amiga de uma amiga. É uma pergunta que te corrói por dentro e te faz chorar até perder a voz. Hoje é que eu sei.

Hoje eu sei o que significa mesmo a preocupação do amor. Isso eu nunca imaginei. Nunca imaginei que o amor me tornasse mais tensa, mais alerta. O amor triplica a sua preocupação porque a possibilidade de ver o outro em apuros te torce o estômago de angústia. Hoje eu sei que amar é preocupar-se, e é viver uma vida sempre um pouco aquém da felicidade completa, justamente por ver — à luz da realidade — que a felicidade é efêmera e fugaz. Foge-te das mãos. Não controlarás nada nem ninguém: deveriam ter escrito isso na pedra quando inventaram os 10 mandamentos. A dor de não controlar cada minuto dessa vida, tão minuciosamente sonhada, pode reverter-se em esperança, o mais necessário dos ingredientes dessa viagem maluca a que nos propomos. Ah, a esperança. É ela quem nos segura nos baixos, é ela quem nos cala quando queremos gritar, é ela quem segura nossos braços quando — sim — queremos socar. Mas a esperança, esse bem tão precioso, também é conquistada. São as pequenas alegrias que a constroem. São as atitudes mínimas, essas que por pouco não são invisíveis, que te fazem feliz. É uma piscadela no meio da multidão, uma respiração no meio da noite, um carinho em meio à secura. São essas pequenas jóias cotidianas que fazem tudo valer a pena. E isso eu também não sabia. Que a intimidade chata e inconveniente é a intimidade que nos torna cúmplices e amigos. Eu não sabia o quanto podemos ser amigos e amados, mesmo sendo tão imperfeitos. Eu nunca imaginei, nunca, na vida, que a alegria de reconstruir o que parecia perdido pode ser ainda maior do que construir de primeira, o que já era esperado. Eu não sabia que mesmo durante a TPM, mesmo com a raiva, mesmo com as irritações cotidianas, uma piada poderia tirar tudo do lugar e trazer alma nova para a situação. Eu não sabia o valor de uma piada bem colocada, até casar-me. Eu não sabia o valor de um telefonema, o valor de um carinho, ou como poderia ser bom ver a porta da sua casa abrir-se — antes mesmo de colocar a chave na fechadura — com um sorriso de amor e saudades. Eu não sabia que poderia ser tão bom, tão real e tão acolhedor. Eu não sabia o que era sentir-se aquecida em pleno inverno. Mas agora eu sei.





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6 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Uau, Ana! Que linda declaração de amor. E que linda declaração de realidade. E que linda declaração de sabedoria. Tudo combinado num texto lindamente tecido. Bravo!

Cristiane disse...

E eu ainda vejo a menina, não a que foi um dia, mas aquela mesma que subiu o altar com o lindo vestido branco e todas as inquietações na mente. Os motivos das inquietações mudaram, mas são as mesmas...

A gente só sabe mesmo quando vive, não quando nos contam. Eu também estou aprendendo um tanto de coisa que só achava que poderia ser. Sempre é de outro jeito, sempre é na nossa carne, na nossa cama e nos nossos sonhos. Não é a história do livro, da amiga, como você disse, é a nossa história e, até que provem o contrário, temos apenas uma chance de escrevê-la deste ou daquele jeito.

Casamento nunca é do jeito que a gente previu que seria e, muitas vezes, é muito melhor e outras dá mesmo uma vontade enorme de dar um grito - e um soco...

A cumplicidade que envolve e aquece é impagável, não há dúvida. E saber o que outro está pensando antes das palavras, e saber como ele está se sentindo apenas pelo ruído dos passos. Mas o que aprendi - surpreendi mais - foi me ver, também, colocada num espelho, sendo julgada e reconhecida pelo som dos meus passos, pelo olhar furioso ou feliz, pelo tom de voz ao telefone. E eu pensava que tinham coisas que ninguém saberia, mas agora ele sabe, mesmo sem palavras.

Belo texto, como sempre.

Beijos

Amor amor disse...

Ana, eu, ainda solteira, acho lindo o texto, a forma como vc expressa a beleza do casamento, mas sinceramente, tenho sentido um frio no estômago mais constantemente, hehehe...só de pensar nos "baixos" que terei um dia de enfrentar se me casar. Ainda não sei se sentir-se aquecida compensa...talvez eu tenha que me casar pra saber. Mas talvez tenha medo de me arriscar só pra saber...
Beijocas doces cristalizadas!!! ;o)

cArLa disse...

Ana,
Mais um texto que me fala ao coração. Acho que os "baixos" justificam e compensam os "altos" e vice-versa, como o yin e o yang. Um dia você "vai saber" o que é adicionar os "frutos do amor" nessa mistura. :)

Marisa Nascimento disse...

Ana, linda sua forma de relatar a construção diária do amor, ou melhor, da preservação do amor! :)

cacau disse...

Parabéns!!!!!! Fiquei muitoooo emocionada lindo d+...Que Deus abençõe vcs!

Bjos ;-)