terça-feira, 23 de dezembro de 2008

A ORAÇÃO DO PAJÉ >> Albir José Inácio da Silva

Desde fins do século passado, ventos ecumênicos têm aproximado cristãos de alguns inimigos históricos. Nessa onda é que o arcebispo convidou para a festa de Natal lideranças de cada religião que conseguiu encontrar. Assim vieram bispos, rabinos, líderes muçulmanos, pastores, babalorixás, monges budistas e até um pajé. O pajé foi o último a ser lembrado porque religiões animistas não têm lá muito prestígio. Além disso ele não tinha e-mail, fax nem telefone. O pajé venceu muitos quilômetros de selva para estar ali. Em compensação, os anfitriões concederam-lhe a honra de pronunciar a oração antes da ceia. O pajé, que começava a conhecer o mundo através de aulas gravadas de telecurso, fez a sua prece, provavelmente cometendo algumas injustiças.

"Ó grande Tupã que sabes todas as coisas, venho te pedir ajuda para estes irmãos confusos reunidos aqui hoje para celebrar o nascimento de Jesus. E que parem de se agredir como têm feito desde que se entendem por fiéis.

Que cristãos não matem muçulmanos em cruzadas pela posse de túmulo vazio, já que Cristo ressuscitou.

Que muçulmanos não massacrem cristãos, judeus, ateus e quem mais estiver no onze de setembro.

Que cristãos não exterminem judeus no holocausto em nome da superioridade da raça.
Que judeus não massacrem muçulmanos em Gaza, em campos de concentração iguaizinhos aos alemães.

Que cristãos católicos não matem cristãos protestantes em noites de São Bartolomeu.
Que cristãos protestantes não chutem mais os santos cristãos católicos.

Que umbandistas não sintam mais vergonha de declarar sua religião ao censo.

Que cristãos não chamem mais de demônios os deuses do candomblé.

Que todos sejam perdoados por suas maluquices fundamentalistas.

Que todos sejam perdoados por atribuir à vontade de seus deuses essas maluquices.

Que Jesus, Maomé, Jeová, Buda e os Orixás se encontrem no paraíso e tracem um plano para que seus fiéis egoístas achem uma forma de convivência e respeito mútuo; descubram uma maneira racional de obedecer aos mandamentos contidos em todos os livros sagrados e não ao ódio instilado em seus corações pelos que transitam hipocritamente por qualquer religião com o único objetivo de satisfazer interesses pessoais.

Que os amigos sorriam confiantes de poderem ter a religião que quiserem, ou nenhuma, porque vão continuar amigos.

Que compreendamos que respeito às diferenças não é virtude, é dever de quem se pretende humano."

Feliz Natal!

Que possamos todos participar da festa cristã. E das outras também.

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3 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Vixe, Albir! Eu andava procurando um sentido para este Natal tão comercial de empurra-empurra nos shoppings da cidade. Que bom que você me apresentou o seu amigo pajé bem em tempo de eu me juntar a ele nessa bonita e verdadeira oração. :)

estrela disse...

Amen!!!!!!!!

Boas Festas, Estrela

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Só pra dizer, Albir, que você é um sacerdote das palavras. :)