sábado, 27 de dezembro de 2008

ADEUS PROLONGADO [Sandra Paes]

Final de ano. Suspiro de alívio retido antes da contagem regressiva. Nunca uma data ficou tão marcada e tão ansiada. Celebrar o ano novo, seja ele do aniversário, seja ele do ano terrestre, dá, pelo menos pra mim, um bafejo de esperança, uma vontade de começar de novo, embora saiba em grande parte do meu córtex que a virada do dia ou do ano é apenas uma convenção simbólica.

Outro dia, me peguei dizendo não sei pra quem: - Você sabe que nosso calendário é fruto de um decreto papal, não sabe?”, querendo dizer que o ano novo fazemos quando de fato decidimos que ele comece.

Embora saiba de todos os hábitos e promessas, listas de mudanças, vontades disso e daquilo, me surpreendo com certos requintes tais como gente que come doze uvas de joelhos no virar da meia-noite e pede para cada uva um desejo a se cumprir a cada mês. Há quem brigue se não comer uma sopa de lentilha ou ainda quem perca o humor se não tiver semente de romã para começar o ano com dinheiro na carteira e nunca faltar grana.

Já vi de quase tudo nas “honrarias” das entradas de ano novo.Tudo em nome de se despedir do ano anterior, de deixar pra trás o que foi de ruim, e sempre prometendo e apostando em novos hábitos, novos sonhos, novas metas.

Eu sempre curti essa festa. Sempre achei maravilhosa essa simbologia do novo, do zerar tudo, essa sensação incrível de pôr um pé no porvir. Talvez por isso mesmo hoje me pego já ansiosa pra me despedir desse ano 2008.

Eu, que sempre fiquei avessa a despedidas, sempre resisti à sensação de ficar com o adeus, sem entender muito bem o porquê dessa coisa, me flagro super-ansiosa pra me livrar de 2008. Paro pra pensar por que, é claro, e constato o óbvio: a gente gosta de se livrar do que não gosta.

E me lembrei de uma fala de Chico Buarque, numa entrevista com Maria Bethania, em que ele dizia que cantar não fazia parte das três coisas que ele mais gostava de fazer, porque o que se gosta de viver, você não quer que acabe.

E quem dera que a gente pudesse mesmo passar uma borracha e apagar o que se viveu como quem apaga o rascunho da redação! Na vida não há rascunho. Esse rio que apenas corre para frente, sem saber se há planícies mansas ou abismos a enfrentar, não nos dá a chance de voltar ao nascedouro, de circular em torno de uma pedra, fazer uma volta e refazer o percurso. O que está feito está feito, e o que não se fez não se tem a chance de repetir, pois o caminho é outro, a paisagem e as circunstâncias também. E isso, talvez, é o que me estanca ou me faz pensar que assim fiquei, no final de ano.

Dezembros sempre foram um marco de dor e de adeus para mim. E não só o adeus ao ano que se vai, mas inúmeros deles. Em dezembro me despedia da escola e dos amiguinhos dali; em dezembro entrava o vazio da longa espera para voltar ao convívio do meu grupo social nos tempos de colégio; em dezembro vinham os balancetes das empresas e o suspense sobre os salários, e se haveria ou não corte nas empresas no próximo ano; em dezembro, o pior dos suspenses: a angústia da espera de Papai Noel e a dúvida se ele iria atender ao meu sonho. Em dezembro, minha mãe se foi, de forma inesperada e muito dolorosa para mim. Em dezembro, as chuvas sempre arrastam casas e desabrigam milhares; em dezembro, se contam as moedas pra se tentar presentear alguns e excluir tantos outros de sua lista de presentes e agradecimentos; e em dezembro, nos pomos de joelhos pra agradecer a via crucis da vida e contar as bençãos que nela recebemos.

Ë sempre o ritual do adeus que precede o novo. E acho curioso que a igreja católica tenha cunhado a celebração do nascimento de Jesus também para dezembro, para trazer esperança aos aflitos, que se multiplicam em progressão geométrica, independente de raça, cor ou credo, visto que o mundo desanda.

Nunca um ano foi tão cheio de revelações e revoltas como esse 2008. Nunca vi a televisão tão ocupada de noticias trágicas, de escândalos familiares, financeiros, políticos, jurídicos, amorosos e pessoais. Revejo toda essa enxurrada que assola a tantos, e choro. Choro sem controle, choro a dor da mãe Terra tão maltratada, choro pelos bebês abandonados em lixeiras, choro pelos abandonos nos hospitais, choro pelo desamparo das mães que perderam seus filhos de forma trágica, por violências incontidas, por abusos e desrespeitos, choro pela perda da harmonia e da segurança nos lares e nos trabalhos todos. Choro de alma que caracteriza a cicatriz que trago no peito desde tempos imemoriais e que vez por outra se abre, sempre que a vibração da perda da esperança e da ilusão que sonhar ainda é bom me pega desavisada.

Ah! 2008… Que ano tenso, que tempos de reconstrucão tão difíceis. Você trouxe a eleição de Obama como sinal de mudança, e também a necessidade de mudança de credos, mudança de atitudes, de valores essenciais, mudança de DNA, sim, para que saiamos do egocentrismo, da ganância, da competição que modula todos os nossos sistemas, do educacional, ao político e econômico.

Quero ousar sonhar que a cooperação seja a tônica do ano novo. Que os lares sejam de todos e não apenas o lugar onde a mãe se desdobra pra manter a ordem e a harmonia. Que as escolas mostrem um novo paradigma na avaliação dos alunos, a força e o ganho da cooperação e não o incentivo inútil e fugaz ao poder do primeiro lugar - denominador da derrota de tantos, da sede de vingança, da opressão sem sentido, da fundação da humilhação e da baixa auto-estima.

Ouso sonhar que o mundo que sempre sonhei desde menina comece agora , já!- porque está muito difícil e é longa a demora dessa passagem, como a agonia de um parto pesado. A cada dia mais uma contração revelando mais uma avassaladora corrupção, mais uma falência institucional, mais tantos desalentos derrubando as ilusões que sustentam nossas instituições já tão falidas.

Como crer em justiça onde as sentenças são previamente compradas? Como crer na capacidade de adquirir um bem, se as instituições que controlam o curso do dinheiro estão quebrando? Como crer num sistema criado para manter a saúde de seus segurados, se as companhias não hesitam em deixar na mão os que mais precisam? Como crer no bem - propriamente dito - se o mal mostra sua cara todos os dias e a toda hora, revelando que não sabemos nos despedir de nossas ilusões?

Ainda se corre pra comprar um carro novo e ficar preso no trânsito como qualquer outro. Ainda se corre pra pegar as liqüidações abertas e ficar com as contas penduradas nas paredes e as compras acumuladas nos armários. Ainda se corre para se praticar a filantropia de enviar sacos e sacos de doações para desabrigados e ver caminhões saqueados.

Quem precisa mesmo de tudo isso?

Meu olhar está cansado e as janelas de minha alma querem se fechar sem tempo pra se abrir até que esse prolongado adeus se finalize. E que esse adeus seja real, mais do que simbólico, e que não precisemos de desamparos tsunâmicos pra efetivar a concretude de que tudo passa, tal como nosso calendário e todas as ilusões que o tempo semeia.


Imagens: Father Time and Shirley Temple "Clock In", 1937, Bettman; Woman Holding a Crystal Ball, Roy Botterell; Hands Holding Seedling, Robert Llewellyn; Pearls Wrapped Around Champagne Bottle, Fancy

Partilhar

9 comentários:

Debora Bottcher disse...

Sandra, Essa é uma retrospectiva muito realista, mas cheia de esperança. Ainda ontem assistindo às memórias de 2008 na Globo, também pensei que não vejo a hora de me livrar desse ano - valha-me, pescava-se, com pinça, as notícias boas... Foi um ano doído, do qual acho que todos querem se despedir... Que venha 2009 - sabe-se lá como, mas que venha, afinal. :)
Beijo enorme.

Marisa Nascimento disse...

Sandra, engraçado isso...Para mim, um ano sempre foi algo natural, tal qual um dia, termina um, começa outro. Agora, 2008, esse eu não vou sentir saudades! :)

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Belo texto, Sandra! Eu, particularmente, gostei, e muito, de 2008, um ano de inícios. E os inícios precisam mesmo "reduzir as ilusões a pó" (Cartola). Ou, como escreveu Maiakovski, "o mar da história é agitado. As ameaças e as guerras, haveremos de atravessá-las, rompê-las ao meio, cortando-as como uma quilha corta as ondas."

Anônimo disse...

Querida Sandra, e' assim mesmo que o Mundo surdo e cego nem sequer presta atencao ao que deveria fazer parte do IDEAL MAIOR, que e' o proximo, amor ao proximo. Voce com sua sensibilidade que refresca nossas mentes, mostra toda esta divida.
E' triste, e por mais que nosso ano tenha sido bom - temos que olhar, simplesmente olhar e enxergar que nao tivemos um ano bom. Adeus mesmo! Bjss Cristina Alegre

sandra disse...

Débora, querida,

aproveito o ensejo da despedida pra fazer uma saudaçao e um agradecimento. A voce, que sempre disponibilizou meus textos "via Artemis"pra brindar esse espaço aqui com as reflexoes que nós, mulheres daquela lista, costumamos fazer. Obrigada por todo seu carinho e suporte.
Seus comentarios sempre sao um incentivo pra que eu continue a escrever, como faço, do coraçao, apenas usando os dedos como instrumentos de digitaçao.

Um beijao,

Sandra

sandra disse...

Eduardo,

thanks pela postagem de seu comentário. Conheço as citaçoes, e como tal, sempre acho que uma citaçao serve de moldura para o que gostariamos de enfatizar.
Nao compartilho da ideia que as ilusoes reduzidas a pó veem com os inicios, e tb nao compartilho que 2008 é um ano de inicio. Acho que um ano de muitas consequencias, muitos efeitos que colhemos por conta de mas escolhas e maus plantios feitos ao longo da historia. Alguns aprendem com os erros, outros pagam com a propria vida, outros ficam à margem de qualquer chance, ate que sua vez de crescer ou se tornar melhor pessoa chega. Nisso eu aposto e confio que faremos a partir de 2009. E ai, talvez, o texto de suas citaçoes ganhem outro contexto.
Aguardemos pois...

sandra disse...

Cristina,

seu comentario faz vibrar minha alma e confima o quanto é bom aprender com voce, sobre humildade, sobre alegria genuina, sobre compaixao de fato.

Obrigada pelo comentario e pela presença aqui e na vida,

Sandra

nicoleteimosia disse...

Sandra, moça linda, como sempre você expressa com clareza enorme suas emoções, a gente se vê pensando e refletindo com você. Não posso reclamar de 2008... ele me trouxe um novo netinho, que nasceu já com 2 anos e meio... e veio de um orfanato, para a casa de minha filha e para nosso lar. Quanto ao resto, a gente passou... como tudo passa, menos o amor. Esse permanece, e isso é que vale por tudo o que não vale tanto.
Beijos, meu melhor, como sempre.
Maria Rita

nicoleteimosia disse...

Sandra, moça linda, como sempre você expressa com clareza enorme suas emoções, a gente se vê pensando e refletindo com você. Não posso reclamar de 2008... ele me trouxe um novo netinho, que nasceu já com 2 anos e meio... e veio de um orfanato, para a casa de minha filha e para nosso lar. Quanto ao resto, a gente passou... como tudo passa, menos o amor. Esse permanece, e isso é que vale por tudo o que não vale tanto.
Beijos, meu melhor, como sempre.
Maria Rita