quarta-feira, 22 de junho de 2011

AS FERAS >> Carla Dias >>

Uma menina linda, linda, carregando sua boneca já vestida para o baile que aconteceria no salão da sua imaginação, puxou-me pela mão, certa vez, para que eu a acompanhasse em uma aventura que ela adorava repetir. Durante a jornada, dei-me conta de que também eu era fascinada pelo tema, apesar de contemplá-lo de outra forma.

Quando menina de tudo, já não via essa história, como diz um amigo, com óculos de lentes cor-de-rosa. E sentada no sofá, a menina sorridente ao meu lado, dando-me detalhes sobre a animação que saltava de um DVD que ganhou de sua mãe, fascinada com os vestidos, as nuances de princesa, oferecia-me uma versão sutil de uma fábula que, em minha opinião, é complexa, melancólica, e quase nunca tem final feliz, o que não lhe tira a beleza.

No cenário artístico, foram muitas as versões das feras e das belas, sendo que algumas delas sucumbiram ao desleixo de se pensar que tratar de um tema desses não pede cuidado. Recentemente, assisti a um filme que considero uma releitura contemporânea dos fatos: a coexistência do belo e do que é não simplesmente feio, mas portador do incômodo de não ser belo, não ser natural, não ser aceitável aos olhos da sociedade.

Mora na dita feiúra um mistério atônito, e aos que se permitem observá-la, detidamente, é oferecida a oportunidade de encontrar mais que alusões negativas. Porque se engana quem pensa que feiúra – das que nascem com a gente e das que nos são impostas no decorrer da vida – é somente física. Fosse possível olhar de perto as almas de muitos, espiá-las, em silêncio, sem interferir nas suas ganas, certamente ficaríamos estarrecidos com o que as habita.

A fera da qual trata a fábula é um homem que é transformado em monstro por um feitiço, e que amarga suas auguras vivendo sozinho e encarcerado pela sua má sorte. Para voltar a ser um homem, não um monstro, ele tem de fazer com que uma mulher se apaixone por ele e diga que o ama. A bela é gentil, doce, fofa, né?, como diria a menina sentada ao meu lado, não estivesse ocupada declamando, bem baixinho, quase em sussurro, as falas do desenho, enquanto trança os cabelos da boneca, olhar vidrado na tela da tevê.

A bela tem essa sutileza da naturalidade, porque ela é tudo isso, não necessita mudar. Aguenta as pauladas da vida com o requinte de quem não sabe ser diferente. No momento do medo, ela se mostra confusa, mas como é de seu feitio, já que bela também é a sua essência, não recusa a presença do monstro ao percebê-lo gentil, avesso ao que demonstra sua imagem. A fera não! Ela foi transformada, virada ao avesso, já não tem a sutileza em sua pura forma. Tornou-se amarga, mas apesar da sua imagem, jamais deixou de ser justa ou terna.

A cada cena que ela mais gosta - porque essa menina não é boba e prefere ter um monte de preferidas -, a menina sorri largo que só. Pergunto se ela não tem medo da fera, e ela me responde que não... Que o amor da bela não tem culpa de ter ficado feio, de botar medo nas pessoas. E que a bela sabe fazer mágica... Vai fazer o monstro virar príncipe.

Eu seria uma fera, sem dúvida. Não me agradaria ser tão plena como a bela cor-de-rosamente perfeita. As feras são transformadas, não apenas por feitiços, não apenas no imaginário. Elas são transformadas a cada momento, a cada experiência. São obrigadas a contemplar a própria diferença, e a aceitando ou não, têm o dever de sobreviver a elas.

A Fera (Beastly/2011)

No final do desenho, boneca de cabelos devidamente trançados, a menina se aconchega em mim e suspira. Diz que, quando crescer, quer uma fera para transformar. É aí que a história não faz sentido para mim. Tanta força só para manter o olhar na direção da fera, tanto medo engolido, tanta dificuldade para aceitar a diferença, e então, a bela, fofa, né? transforma a fera em um tipo de príncipe encantado.

Bela, para mim, não é a moça delicada e amorosa que transforma feras com seu beijo. Bela, para mim, é a oportunidade de conhecer a fera, compreender-lhe a existência, perceber a sua bondade e se permitir conviver com ela assim, do jeito que ela é. E nem pensem que se trata de se fazer favor, porque somos mais feras do que belas.

E a menina, não se aguentando de tanto apaixonamento pela história da bela e da fera, empunha o controle remoto e aperta play. Ela quer assistir de novo, garantir que a sensação não lhe escape. Deixa a boneca de lado, mas pega outra. Enquanto assiste, trança-lhe os cabelos. Os cabelos das belas bonecas que enfeitam o seu quarto.

E eu, incapaz de assistir ao desenho com a naturalidade de uma criança que descobre uma das histórias que vai adorar por anos e anos, até pela vida, beijo-lhe a face, e a menina nem tira os olhos da tela. Saio de cena, de uma das cenas preferidas dela.

É hora de encontrar as feras, misturar-me a elas. Sentir-me em casa. Porque, fosse possível olhar de perto as almas de muitos, espiá-las, em silêncio, sem interferir nas suas ganas, certamente ficaríamos maravilhados com a beleza que as habita.



carladias.com



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4 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

obra-prima, Carla. Tão encantadora quanto a Bela e a Fera é a sua história com a sua sobrinha (?) e com você mesma.

Marisa Nascimento disse...

Carla, emocionante!
E mais uma vez, você coloca encanto e perfeiçao!

albir disse...

Fico maravilhado, Carla, com a beleza que você desvenda.

Carla Dias disse...

Eduardo... Você sabe que esse “obra-prima” me encheu de alegria, né? E na verdade, eu misturei momentos não apenas com as minhas sobrinhas, mas também com as minhas primas.

Marisa... Obrigada : )

Albir... E eu fico honrada por isso.