domingo, 12 de junho de 2011

VIDA DE NAMORADOS >> Eduardo Loureiro Jr.

Eram de famílias amigas. Ele tinha 10 anos. Ela, 15. Ela não podia ser namorada dele, então ele deitava na cama dos pais e ficava namorando um quadro da Virgem Maria com o Menino Jesus no colo. Ele ficava imaginando que talvez desse certo quando ele tivesse 15 e ela 20, ou quando ele tivesse 25 e ela 30. Hoje, a idade não faria diferença. Mas quando eles se encontram nas festas de família, cada um fica com seu namorado.


Faziam Cultura Britânica na mesma turma. Ela estudava na Escola Técnica e tinha tantas palavras na boca quanto sonhos cacheados em seus cabelos. Ele estudava em escola particular, era acanhado e parou de roer as unhas por causa dela. Quando terminou o semestre, bateu a saudade e ele enviou para a casa dela uma carta marcando um encontro na praça. Ele chegou com uma fita cassete do Kenny Rogers, todo Lady, I'm your knight in shining armor, e ficou esperando, esperando, esperando. Ela não apareceu. Em casa, ele removeu o papel de presente, colocou a fita cassete para tocar e chorou por dois dias seguidos: Don't fall in love with a dreamer. No terceiro dia, ela apareceu na porta da casa dele, com a carta na mão, toda Still here we are, both of us lonely... we've got tonight. Os Correios não haviam entregado a carta a tempo. Compreensível. Mas ele já havia chorado toda a sua paixão. E não ficaram.


Participavam do mesmo Grupo de Jovens. Ele entrara no coral e tocava um pouco de violão. Ela já era uma mulher no corpo e no jeito. Nos domingos de manhã, faziam um trabalho assistencial numa favela. À tarde, ele ligou para ela: "Por que não consigo dizer o que sinto quando estou perto de você?". Ela entendeu a mensagem. Antes da missa, ele passou na casa dela. No portão, beijaram-se pela primeira vez. O primeiro beijo dele. Caminharam de mãos dadas até a igreja. A primeira namorada dele. Na hora da comunhão, a hóstia ficou com gosto de batom de cereja.


Eram colegas de escola. Já tinham passado um final de semana com a turma: praia lotada, violão arranhado, macarrão grudado no fundo da panela... Estavam se aproximando aos poucos e eram quase amigos. Um dia, uma noite, ele foi à casa dela e chegaram mais perto, lentamente, até que se beijaram, intemporalmente. O beijo acabou quando o pai dela apareceu na varanda e disse que já era hora. Enquanto caminhava para casa, madrugada já avançada, ele ficou se perguntando se a data de comemoração do início do namoro ficaria no dia 16 ou no dia 17.


Eram namorados já havia um tempo. A menstruação atrasou e ela fez o exame. Ele foi até o laboratório receber o exame com ela. Decidiram ver o resultado num motel. Conversaram. Antes ou depois? Antes. A mão dele nas costas dela. As mãos delas no envelope. O lacre rompido. Negativo. Ficaram calmos. Ela deixou o papel cair no chão. Ele a reclinou sobre a cama. Fizeram amor. Sem camisinha.


Faziam um curso de Francês Instrumental à noite. Ele todo estudos, esquecido que o prazo de sofrimento da paixão anterior já havia vencido. Ela passando apenas uma temporada na cidade praieira. A professora passou um exercício de tradução em duplas: "Dans mon île / Un parfum d'amour / Se faufile / Dès la fin du jour". Ele todo Sans songer à demain. Ela se achegando, tendant ses bras dociles. Na saída, o carro dela deu o prego. Ele fez o carro pegar e os dois passearam pela beira-mar. Ele desconfiava que ela era homem. No dia do amor, ele fez questão de se certificar antes. Ela era ela. E, com o passar do tempo, ele ficou convencido de que ela era mulheríssima, Bien tranquille, près de son doudou.


Viam-se às terças e quintas. Ele era um jovem professor. Ela era uma aluna fascinante. Confiantes impérios conquistando receptivos aborígines. Quando as aulas terminaram, ele e ela continuaram se observando, se provando, se apoderando. Extraordinárias batalhas, ele enfrentou por ela, e ela por ele. Fogo interno, fogo externo. Inimigos incomuns. Quando venceram, foram vencidos. E ficaram amigos.


Eram astros do mesmo universo. Ela, uma visitante em periélio. Ele, um anfitrião em erupção. No dia seguinte, ela em afélio, ele em eclipse. Atreveram-se a ser próximos à distância. Ele ia até ela com a lira das próprias tripas. Ela vinha até ele em raios de inspiração. Ele, astro-rei. Ela, rainha da noite. Fases. Fases. Fases. Fases. Até que a Terra chamou. Encarnação. Realidade. Ele e ela ficaram com as canções.


Eram da mesma terra, mas conheceram-se num voo. Ele inconformadamente solteiro, olhando a lua distante na janela do avião. Ela com uma aliança no anular esquerdo, exemplarmente casada. Ele e ela resistiram honradamente o quanto puderam: uma aterrissagem, uma caminhada e uma tapioca. Fazia muito calor dentro dele, doutrinas se derretiam dentro dela. Fundiram-se em recônditos lugares. Ele, estratagemas. Ela, artimanhas. Um dia, ela disse a ele que o marido era capitão. Outro dia, ele recebeu uma ligação: "Você está pensando o quê da vida?". Ele gelou, antes que um amigo que não sabia nada da história desfizesse o trote e retomasse a voz usual. Pouco depois, ele ligou para ela. Encerrada a ligação, ele ficou de um lado da linha e ela ficou do outro lado.


Constelaram-se em um final de semana terapêutico. Ele, solícito, acompanhando uma amiga. Ela sozinha, já há algum tempo. No sábado, sentaram-se diametralmente, em oposição no amplo salão. Quando chegou sua vez, ela o convidou e ele representou o pai dela. Ele se perguntou por que raios ela havia adivinhado que ele era um soturno saturno. No domingo, ao final do alongamento da manhã, ele, já de pé, estendeu os braços e ofereceu a ela as mãos. Corpo em elevação. Olhos em conjunção. Uma semana depois, encontraram-se no parque e os patos do lago comeram as migalhas dos medos dela. Ele e ela num beijo de lamber os beiços. Namoraram. Depois desnamoraram. Depois voltaram a namorar. Depois se desnamoraram de novo. E se namoraram mais uma vez. Ele resistindo.  Ela insistindo. Quando já era quase hora de partir, ele, Saturno, anelou a mão dela, dourada Estrela. Ficaram fincados. Paixão à primeira vista, amor em infinitas parcelas.

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13 comentários:

Alba Mircia disse...

Querido,

Em cada amor, uma beleza... Em cada parágrafo, a sua sutileza... Eu, contente pela nossa serendipity na busca comum pela gentileza.

Geralda disse...

Eduardo Jr., seus sentimentos expressos em frases, em versos, em canções, seja como for, faz bem aos corações.
Muito grata por todo bem partilhado, grande abraço,
Geralda
Fortaleza-CE

albir disse...

Isso é que é um cronista generoso: o leitor busca uma crônica no domingo, e encontra dez. Parabéns!

Marilza disse...

cada um com uma estória pra contar, diferente, presente, em cada conto um sonho...

fernanda disse...

Que delícia que é quando os amores antigos viram lembranças boas, né? Obrigada por partilhar, Eduardo!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato pelas Ezas, Querida. :)

Que bom que você recebe como bem, Geralda.

Generosidade sua também, Albir. Grato.

Pois é, Marilza. Ainda pensei em, no final da crônica, pedir para vocês deixarem uma história própria aqui nos comentários. :) Bom, o convite está feito a todos.

Delícias light, Fernanda. :)

eduardo.kiwi disse...

adorei as primeiras :)

Eduardo Loureiro Jr. disse...

O comecinho é sempre bom, né, Eduardo? :) Grato.

amanda disse...

ESSA CRÔNICA E OTIMA FALA DE AMOR PARECE COM UMA AMIGA MINHA E O NAMO DELA! romance e tudo ee = a eu beijos

AMANDA,LAURA,ALINNY disse...

ola eu sou amanda eu mora em madalena-ce.estudo no álvaro de araujo carneiro.eu amei essa crônica . e perfeitae = a minha vida .antes de ferir um coração lembre-se quer vc pode estar dentro dele .não importa eu que lingua:amor,l'amor,love...= EU TE AMOO.
ASS: AMANDA,MARIA LAURA,ALINNY

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Amanda, Laura e Alinny, turma do Araújo Carneiro, aí do meu Ceará... Que bom que gostaram da crônica. Voltem sempre.

Frederico disse...

Explêndido!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato, Frederico. Não é todo dia que se recebe um adjetivo bom desses. :)