quarta-feira, 8 de junho de 2011

AS TRÊS MARIAS >> Carla Dias >>


A primeira Maria é das dores...

Ela passa o dia a assoprar dolências, tentando diluí-las em esperança, afogá-las em bálsamo. Acredita-se que, diferente do rotulado, ela aprendeu a lidar com a dor de um jeito único. De um jeito de engolir sem engasgar com lágrima, de não revidar, mas sim aguardar até que a espera se torne recompensa, e que as dores sejam neutralizadas pela felicidade, que bem sabemos, é passageira, não é companheira feito a dor, mas tem um poder sem igual de arrancar sorriso da gente, de fazer graça com a tristeza.

Maria das Dores tem um jardim de tulipas no quintal de sua casa. Dia sim, dia não, caia chuva ou faça sol, ela se deita entre as flores para doer. E de cara com o céu, doendo o diabo de tanto sentimento, esvazia-se em condolência, despedindo-se das dores, tendo o abrandamento como recompensa.

Maria é das dores porque sabe deixá-las partir.

A segunda Maria é dos anjos...

Quando deita a cabeça no travesseiro, faz uma oração longa e emocionada, na qual agradece as bênçãos e solicita milagrinhos, para que a vida não passe em branco. Para ela, Deus mora em tudo e em todos, mas não é mulher de catequizar. Tem por sagrado o direito do outro de não crer no que ela crê. Então, fala a respeito apenas quando lhe perguntam. Porém, dependendo da forma como lhe perguntam sobre a sua espiritualidade, defende-se intelectualmente, alegando ser apreciadora da obra de Michelangelo exposta na Capela Sistina. E tão requintada é a sua eloquência, que nem desconfiam que ela jamais tirou os pés da própria cidade, o que dirá visitar outro país.

Maria dos Anjos tem uma loja de badulaques, anjinhos de enfeite, CDs de segunda mão (ou segundo ouvido?), que fica naquela rua arborizada como raramente vemos nas cidades grandes. Lá ela cultiva mil facetas da sua crença na vida, nas escolhas do ser humano, no direito de ser e estar de bem com a própria verdade. Livros espalhados em prateleiras, sobre mesas, até empilhados no chão, representam, para ela, histórias que ela poderia ter vivido, tivesse nascido outra. E o que não sabem sobre ela, sobre os que lhe acompanham, é que apesar de ter escolhido a religião da vida, dos homens e seus destinos diversos a desembocarem em um mesmo futuro, que pode ser contado, de acordo com a forma como cada um lida com a sua biografia, é que na noite já alta, às vezes depois da oração, ela se levanta e vai até a sala, liga a televisão. E depois do play se inicia o filme que ela queria que fosse sobre a vida dela. Por detrás de todas as máscaras, ela é apenas uma mulher apaixonada pelos anjos de Wim Wenders.

Maria é dos anjos – cinematográficos e onipresentes – porque sabe que a vida também nos dá asas para voos que jamais imaginávamos poder voar. E ainda assim, voando voos inimagináveis, há um prazer sem igual em voltar, em sentir a terra debaixo dos pés. Em abrir as portas do lar.

A terceira Maria é das graças...

Enquanto caminha, os pés dançam no chão, mas de um jeito miúdo, que confunde o espectador, ele que se vê crente de que a moça simplesmente levita, e escorrega pelas bordas da realidade. Enquanto fala - a voz que mais parece música preferida -, ela diz tantas levezas que a gente se sente engalfinhar pela religiosidade gritada pelo seu coração apaixonado por horizonte.

Maria da Graças é dona de uma bodega, no centro de qualquer lugar. Ela enfeita as mesas com cores das flores, das louças, dos panos, que o lugar mais parece uma caixa de lápis de cor. Soluça quando gargalha, faz um escarcéu quando precisa de cafuné, adora os vestidos e as cantigas de roda. Às vezes, fica em silêncio, mas apenas para escutá-lo confidenciar-lhe desejos. Depois grita, como se tivesse à beira do abismo, o corpo curvando, cedendo à profundidade do medo. Mas é só coisa pra espantar desassossego, porque depois ela se espreguiça, côa um café, mordisca pão caseiro, sente-se em casa.

Maria é das graças porque não se entrega a desespero que seja.


Imagem: Tre Donna © Umberto Boccioni

carladias.com

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10 comentários:

Debora Bottcher disse...

Carla, querida, Sempre me emociono com seus textos e esse não fica por menos, já que todas essas 'Marias' moram em nós... :) Que beleza de narrativa... Dói, de Graça e Anjo. Super beijo.

Crazy Mas Feliz disse...

A com certeza você se referia a nós...As três Marias de dona Alzira...

fernanda disse...

Lindo, lindo! Acho que todas nós temos algo de Maria, né? "Quem traz na pele essa marca possui, a estranha mania de ter fé na vida".
Beijos!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

E eu que pensei que só olhando o céu para admirar as Três Marias. Belos retratos, Carla.

Carla Dias disse...

Débora... Obrigada por se permitir emocionar pelas minhas palavras. É uma honra para quem, quase sempre, não sabe o que dizer. Beijos!

Crazy Mas Feliz, Ká... Não pensei nas filhas da Dona Alzira, porque narrativa seria diferente. Se eu parar para contar os causos... rs. Eu quis fala sobre as várias mulheres que vivem em cada uma de nós. Falei somente sobre três Marias, mas sabemos que elas são muitas, e diversas. Beijo!

Fernanda... Obrigada! Sim... Nós temos as nossas Marias, cada qual com a sua visão, sua mania de discordar da outra. Beijos!

Eduardo... Há Marias que se dependuram no céu, mas também há aquelas que desfilam pela Terra, e até na imaginação de muitos. As Marias são uma verdadeira força da natureza.

albir disse...

Carla,
também tenho um conto com esse título. Só que as Marias são: da Glória, da Penha e das Dores.
Seu texto, como sempre, imprescindível. Beijo.

Carla Dias disse...

Albir... Quero ler suas Marias... Beijo.

albir disse...

Carla, mandei por email. Beijo.

MARIA AMANDA disse...

TODOS OS DIAS EU OLHO PARA O CÈU E VEJO LINDAS ESTRELAS.MAIS AS MAIS LINDAS SÃO AS TRES MARIA. PARECE EU E MINHAS DUAS AMIGAS.MARIA AMANDA,MARIA LAURA E A MARIA ALINNY BEIJOSSSSSSSSSSSS

Carla Dias disse...

Maria Amanda... O que seria do mundo sem as Marias? As estrelas, as mulheres, as meninas? Que sejma sempre unidas a Maria Amanda, a Maria Laura e a Maria Alinny. Beijos!