sexta-feira, 24 de junho de 2011

MAIS UM DEUS REFUGIADO
>> Leonardo Marona

Quando criança, um médico disse: “não há o que fazer, a alma parece descolada”. Sua mãe, refugiada vermelha como toda a sua família, reforçava o coro dos ausentes, e sua infância foi praticamente movida ao som da vela dos barquinhos de papel.

Quando dos primeiros fios de barba, tinha um cabelo esquisito a que chamava de “minha doce loucura”, e justificava dizendo que “ela se espalhava por todos os seus poros, como o cabelo, e principalmente nos poros da cabeça”. Reparou que tinha lágrimas metálicas, e seu choro era metálico, de som metálico. Disseram: “você devia tocar guitarra”. “Prefiro sopro”, ele disse, “mas, de qualquer forma, não tenho dinheiro”. Disseram: “Então pega uma, toca: se gostar, fica, se não gostar, devolve”. Então pediu a um camarada periférico que fizesse o serviço. Este mesmo camarada transava acid jazz e ácido lisérgico, e lançou mais um pupilo nas artes do prazer e do amor e, portanto, nos arremedos da dor.

Quando ouviu pela primeira vez Wes Montgomery tocar, tentou cortar fora a orelha numa atitude impulsiva a qual, depois, denominou “proximidade com o divino”, em referência ao conhecido caso do pintor holandês. Com Paco de Lucia, o caso foi um pouco mais grave. Vestiu-se por meses como um hebreu, passou a falar numa outra língua, segundo muitos, fruto de sua imaginação e da sua poesia, mas era uma língua metálica, era um solo metálico, uma plantação vasta de sons metálicos, de árvores metálicas, pássaros de alumínio. Passou a falar como uma guitarra. Não se movia mais, ficava encostado num canto, alimentando poeira, apoiado numa cadeira como muitos violões esquecidos, com sua bata hebreia e suas alucinações de chumbo. Um dia piscou os olhos e disse alto: “o Siroco! Está chegando o Siroco!”. Então voltou a falar, mas só falava nisso: no Siroco, que chegaria do Saara para corroer as ruínas greco-romanas e sacudir os esqueletos dos fantasmas sanguessugas de almas.

Alguns o consideravam o maior guitarrista de todos os tempos, normalmente bêbados de coração sensível. Outros lhe atiravam moedas e o que nem os pombos se dignavam. Sapatos apressados passavam como facas de verniz. Mais uma tarde amarelava como o enjoo do sol. Ele tocou, tocou a tarde toda, tocou por um milênio, tocou como um dos grandes, então parou e guardou a chave do tempo no bolso com seus trapos e sua beleza. O tempo que não admite arestas ou gaiolas, o tempo metálico. Mas o primeiro médico tinha mesmo razão: a alma descolada. E o aplauso surdo das marquises se esfarelou na tensão constrangida pela admiração cósmica da poluição atmosférica pelos seus deuses de ferro.




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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Mais uma bela minibiografia, Léo.