sexta-feira, 10 de junho de 2011

A MORADA DO FILHO DOENTE
>> Leonardo Marona

Um livro que você escreve com as próprias mãos é onde você mora. O livro é sua morada e é também um filho doente, uma casa abandonada, com um filho doente dentro. Um livro que você escreve com as próprias mãos não é um livro. É possível amá-lo, mas será inevitável ser infeliz ao lado dele. E ao mesmo tempo um livro é tão inevitável quanto isso. Então fazemos livros, nossos filhos doentes. E o que fazem os filhos doentes, que amamos, e que nos fazem infelizes, justamente porque não são apenas doentes, são muito doentes, e necessitam de toda a nossa atenção, mas são irreversivelmente doentes os pobrezinhos, e mesmo assim seremos cem por cento atenção, cem por cento esforço perdido ao vento, e não saberemos explicar quando alguém nos perguntar, “e então, como vai seu filho irreversivelmente doente?”, coraremos, suaremos as têmporas exaustas, e seguiremos, talvez depois de um sorriso demente, mas o que fazem os filhos doentes? Isso ninguém sabe.


Fiz este livro, mas e agora? Sou obrigado a abri-lo, mostrá-lo, lê-lo em voz alta, às vezes um pouco bêbado, nem sempre com cuidado, e ele é um filho doente, disso eu sei, precisa de total atenção. Dedico-me. Tento apagar os vestígios de uma vida anterior. É sabido que já nada será como antes. Um segundo livro, e não consigo ter mais nada na cabeça. As idéias continuam borbulhando um tanto desconexas em minha decisão de domá-las. Sento diante da máquina como um cronista fracassado que começa uma crônica sobre o fato de não saber o que dizer. Talvez Antonio Maria tenha feito isso alguma vez, talvez Tom Wolfe. Não há necessidade. Mas aí a questão. Sem necessidade, tal que a vida, através do livro “realizado”, está fadada a uma doença irreversível que, no entanto, envolve mil cuidados. Necessidade alguma, pensem bem.


Duas semanas fora de casa, as roupas em andrajos, o cansaço do gladiador antes de ser engolido pelos leões. Penso seriamente em comprar um sofá, um sofá novo faria a vida mais suportável, me disseram, e faz todo sentido. O livro está pronto agora, assim meio algum-dia-vir-a-ficar, como dizem, e estou com as calças na mão, tentando entender o que é andar pelas ruas com objetivos claros, nenhum clamor de faca. Vigorosamente tento ser simpático, abro os dentes, passei a lavá-los cinco vezes ao dia. No entanto, fumo demais. É o melhor antídoto para os que não pensam. O livro está lá, sabe-se lá onde, faminto e sem pai, sem paz e sozinho, um filho doente, uma morada, uma casa abandonada com um filho doente. Subo a colina, finalmente. Um livro, idéias, eles já não estão em mim, diria até que, feito um Judas, poderia alegar que desejaria que o livro jamais tivesse existido, e o que ele contém agora não é mais meu e é doente e precisa de cuidados continuasse comigo. Porque um livro que se faz é um livro que se perde. Pensem nos filhos. Não há o que fazer. É subir a colina, amputar o cérebro em coisa morna.


A verdade é que a morada circula em nosso sangue. O sangue ferve, somos a morada que circula. O sangue baixa, abrem-se as janelas da morada. Não precisamos de casa, a questão nunca foi de ordem material. A casa que carregamos desmorona e se ergue como os antigos templos. Somos a casa que carregamos e que desmorona e se ergue outra vez. E apenas a sensação do peso da morada em nós, em nossos passos e em nossa respiração descompassada, em suma, em nossa completa falta de objetividade, por apenas conceber o movimento contínuo como espécie de benção dura e inafiançável, apenas isso será dito, porque só deve ser dito o que cabe na morada. Morar, como morar, como não morar, não morar. Os sem casa têm a maior casa de todas. Os sem casa criam raízes diretas com o mundo. Mas nós não temos tanta coragem, precisamos de um álibi, um pouco de cimento escarrando paredes, e pouco importa. Sabemos que a casa é uma inevitabilidade, que pouco importa que agora, por exemplo, tirando os sapatos e acariciando meu gato vermelho que se chama Van Gogh e no entanto é fêmea (A Vincent, portanto), andando até a cozinha enquanto escuto a nova grande descoberta da música de todos os tempos, os malucos andino-suecos e morbidamente semelhantes do Herman Dune, acendo um cigarro e escuto também o som lamentoso das mangueiras em frente à janela da sala, e eu sei que em algum lugar muito perto há dor, pessoas amassadas em seus próprios lares por uma tirania viável. Ouço tiros pela janela e sei, sinto como se fosse necessário justamente espreguiçar, abrir a velha caixa de ferramentas do penoso e divertido exercício da escrita e, meus camaradinhas, tateando os escombros da última casa demolida, sentar firme o dedo, desviar da alegoria e reconhecer o sólido casco de tartaruga milenar que cobre minhas costas, mesmo que isso não seja nada além do reconhecimento fatal de que precisamos de muito pouco para seguir vivendo.



www.omarona.blogspot.com

NOTA DO EDITOR: O novo livro do Leonardo Marona chama-se "L'amore no", foi editado pela 7letras e pode ser encontrado aqui.


Partilhar

Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

É, Léo... pelo visto, o amor paterno também é um mito. :)