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CAFÉ E COMPANHIA >> Carla Dias >>

A sala de casa, quando eu ainda morava com minha mãe, irmã, irmão e avó era bem disputada à noite, por quem queria assistir a televisão. Durante o dia, era de uso livre de quem estivesse a fim de utilizá-la. A cozinha sempre foi a vedete do dia. As tias e primas se reuniam lá, o café mal parava na garrafa térmica, por isso havia sempre café fresco disponível.

Eu, que sempre fui de ficar sozinha, aproveitava a sala durante as reuniões das moçoilas da família, quando minha irmã e meu irmão estavam fora. Na cozinha, às vezes minha mãe costurava, enquanto uma leva de mulheres discutiam de tudo um pouco. Não raro, as tardes acabavam em bolinho de chuva e conversas calorosas, vozes disputando lugar para serem ouvidas.

Depois de me apropriar da sala - tranquila por saber que dificilmente alguém entraria no cômodo e me pegaria no ato -, eu me esbaldava com o LP The John Lennon Collection. Acho que nunca dancei tanto na minha vida quanto naquelas sessões na sala de estar de casa, o volume do toca disco no talo, as mulheres da família falando e bebendo café na cozinha, enquanto eu chegava ao frenesi com  Mind Games, (Just Like) Starting Over  e Jealous Guy.

Naquela época, 1993, havia pessoas que gostaria de ter conhecido, mas já haviam falecido. John Lennon encabeçava a lista, seguido por Gonzaguinha, Janis Joplin, Gandhi e Clarice Lispector. Com o passar dos anos, outros entraram para a tal lista, entre eles Charles Bukowski, Jane Austen e Freddie Mercury.

Meu desejo em conhecer essas pessoas não tem a ver com a tietagem na sua bruta forma. Não seria ação somente para ter o direito a autógrafo e foto para publicar no Instagram. Eu imagino algo como um café na padaria, um chá na sala de estar (a sala!) ou um uísque no boteco da esquina, dependendo da pessoa, para um bate-papo longo e relevante sobre suas obras e o que os levou a criá-las. Não nutria a esperança de me tornar amiga íntima de nenhuma delas. Eu queria saber sobre o que as movia, curiosa que sou pelo ser humano e suas crias. Eu queria aprender com a emoção que elas despertam em mim.

Hoje a minha lista de desejos para papear é longa e inclui muitos que ainda estão – e estarão ainda por um bom tempo – por aqui. Alguns chamam isso de sonho, mas acho que, a despeito das importantes figuras que habitam esse meu  desejo fantástico, há também aqueles nos quais esbarrei, sem querer, e que me fizeram passar por experiências tão instigantes quanto a imaginária. Sendo assim, é sonho e realização, nas proporções que me cabem , e eu não me importo em misturar essas estações.

Atualmente, o bate-papo que mais desejo ter é comigo mesma. Se fosse possível, gostaria de saber de mim porque desejo tanto saber de outros o que os move, o que os inspira a criar, a fazer mudanças significativas na sociedade, a dar vida ao som e à imagem para um mundo que anda carente da atenção do ser humano, mas assim, percebendo a sua real importância. A sua absoluta importância. E se eu pudesse, perguntaria a mim mesma, mas sem direito a desviar do assunto, todas as perguntas evitadas, para que pudesse responder com a mesma ousadia.

Acontece que, assim como os nomes que estão na minha lista, essa conversa comigo mesma depende de um tanto de sonho e outro tanto de realidade. De uma capacidade quase infame de tocar as verdades para tirar dos esconderijos interiores as omissões. De aprender significados de mais de um jeito, mais de um cheiro, mais de uma cor. De desabitar o definitivo apenas para ancorar nesse mar aberto no qual navegam os meus ora pueris, ora indecorosos sentimentos.

E de dançar Stand by Me mais uma vez, na sala de estar da minha esperança, as vozes de minha mãe, tias e primas ecoando, quase em uníssono, “está na hora de passar um café”.


Comentários

Evaristo disse…
Carla, muito bacana esta sua crônica! Eu também ouvi muito na infância o disco "The John Lennon Collection" em vinil. E me intriga que conseguisse dançar uma música como "Mind Games", que é para a mente, e não para o corpo. Talvez, só com Tai Chi Chuan... Continue!
Carla Dias disse…
Olá Evaristo! Obrigada pela leitura.

Dizer que eu dançava, na verdade, é subestimar a minha falta de jeito para com essa arte. Mas Mind Games é uma música que sempre falou diretamente com a minha cabeça e meu espírito. Dançá-la era, na verdade, mergulhar nela. Os movimentos eram, na verdade, meu jeito de saboreá-la. E estava mais para "uma noite em Woodstock" do que para uma sessão de Tai Chi Chuan :)
albir disse…
Carla,
teus leitores também gostam dessa conversa "contigo mesma".
silvia tibo disse…
Nada como uma boa conversa com nós mesmos, não é Carla?
E nem sempre é fácil encarar aquilo que descobrimos nesse processo de autoconhecimento.
Texto lindo, como sempre.
Grande abraço.
Carla Dias disse…
Albir... Volte sempre para o bate-papo. Beijo.

Silvia... Sim, essas são as conversas catárticas, sempre trazem uma carga de desentendimento existencial. Obrigada pela leitura, viu? Beijo.

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