domingo, 20 de janeiro de 2013

TODOS OS NOMES >> Whisner Fraga

Antigamente, o escrivão decidia o nome de muita criança. Em geral, era o pai que ia registrar o filho, uma vez que a mãe se dedicava a cuidar do recém-nascido. Aí é que a coisa desandava, pois homem é menos ligado a detalhes do que mulher. Então, meu sogro chega à mesa do atarefado escriba e pede que lhe faça o favor de oficializar a paternidade. O nome da criança?, indaga o sujeito, enquanto gira uma manivela que posiciona o formulário na máquina de escrever. Gimenna, responde Dorival. Para surpresa de todos aqueles que ouviam, o funcionário retruca: mas não é possível, isso não é nome que se dê a uma criança, coitadinha.

Meu sogro é uma pessoa do bem, humilde até onde não se pode e até onde não mais se encontra. Retornou para casa e foi procurar a esposa. Minha sogra é uma pessoa do bem, humilde até onde não se pode e até onde não mais se encontra e confabularam: se o doutor pensa assim, acho que devemos pensar melhor E é por isso que minha esposa hoje se chama Ana Lúcia.

Já escutei história semelhante de meu pai, só que, no caso, ele não se deixou influenciar. Bateu o pé, inventou que havia sonhado com um alemão, daqueles alemães bem brancos mesmo, barba ruiva, gordo e arrogante, que prenunciava um destino de sofrimento para o filho, caso não aceitasse aquele nome. Supersticioso, foi o bastante para que o oficial cedesse.

Em alguns casos, eu até concordo com a intervenção. Um Dois Três de Oliveira Quatro. Quem gostaria de se chamar assim? Ou Esparadrapo Clemente de Sá? Ou Ava Gina? Ou Adolpho Hitler de Oliveira? Hoje, o oficial ainda detém um certo poder. Se achar que o nome escolhido pelos pais não é conveniente, porque tem dúvida se é vexatório, que pode expor a criança ao ridículo, primeiro questiona os tutores. Se insistirem, o responsável pelo registro pode encaminhar um pedido para que o juiz faça uma análise.

Mais comum são os erros de grafia. Tenho um amigo que deveria se chamar Demis, pois a mãe desejava homenagear o famoso cantor grego Demis Roussous. Acabou se chamando Denis, claro. Como as letras “m” e “n” são muito parecidas, só ficaram sabendo do equívoco algum tempo depois, quando foram namorar a certidão de nascimento. Acho que muita gente tem história parecida, pois aqui no Brasil as pessoas são muito criativas e sempre querem ser diferentes.

Eu também sofri durante muito tempo com meu nome. Não que não goste dele – aprecio bastante, obrigado. É que basta me perguntarem como me chamo para que eu escute, em seguida: Como? Em alguns casos, a coisa piora quando tento soletrar: dábliu agá. Como? Alguns confundem o “w” com o “y” - é mais comum do que podem imaginar. Hoje eu não perco mais o sono por isso. Arranjei uma solução muito simples: quando me pedem o nome, saco a carta de motorista e facilito as coisas para todo mundo. A convivência requer essas soluções, temos de tentar facilitar a vida de todos.

Há algum tempo que os brasileiros se inspiram em personagens de novelas, cantores populares e jogadores de futebol para escolherem os nomes dos filhos. Assim que uma pessoa nos revela como deve ser chamada, já podemos chutar sua idade: sim, isso também é moda. Basta ver como os atores globais mencionam a prole: Jerônimo, Joaquim, João, Maria. Isso é bom. De qualquer maneira, acredito na boa intenção de todos e acho que as pessoas devem ser respeitadas e que ninguém deve ser julgado por uma coisa tão banal como o nome. E é importante nos lembrarmos que qualquer palavra nada mais é do que um amontoado de letras que em algum momento da história fizeram algum sentido a um determinado povo e que se perderão para sempre na finitude do tempo.

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Um comentário:

Zoraya disse...

Que legal essa Whisner (como todas, aliás!) - mas vc esqueceu de dizer se seu nome é pronunciado como "v" ou como "u"... Há muitos anos, cansada de me chamarem Soraya, me apresento como Zoraya, com "Z"...