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AS ESCULTURAS DO JARDIM >> Zoraya Cesar

O grupo era barulhento, buliçoso, irreverente, como é de praxe entre jovens amigos tocados pela bebida. Saíram da cidade histórica sem terem realmente aproveitado grande coisa, desfazendo do passado e das tradições, encontrando ocasião de riso ao passar pelos túmulos das Igrejas antigas, que guardavam os restos mortais de seus religiosos ou das famílias tradicionais das cidades debaixo do piso. Nenhum túmulo ou espaço sacrossanto deixaram de ser agraciados por uma piada, um comentário depreciativo.
 
Apenas um dos rapazes não participava ativamente das brincadeiras, oscilando entre achar graça do comportamento geral ou sentir um fugidio e envergonhado sentimento de culpa, nascido das histórias que a avó contava sobre o respeito aos mortos, à presença de vida na matéria morta, das rezas, simpatias, fé. Mas a minha avó, repetia ele, não passava de uma ignorante supersticiosa, que veio da roça e mesmo aos 96 anos não dormia sem rezar aquele enorme e inútil rosário.
 
A infância estava um pouco longe, e a avó também, tanto quanto aqueles mortos nas Igrejas, a memória esmaecida pelo tempo e interrompida pela buzina e pela gritaria dos amigos, que o chamavam para seguir viagem.
 
A tarde se despedia lentamente do dia quando eles chegaram à casa alugada para o feriado, escondida dos carros que passavam pela rodovia principal, distante uma estrada inteira de terra esburacada, que dificultava o acesso à grande porteira de madeira já meio velha e úmida. Claro que a dificuldade em alcançar a casa também podia ser creditada ao leve teor alcoólico que corria no sangue do motorista. Não só dele, de todos, aliás.
 
Entre a porteira e a casa, um largo jardim, mal iluminado pela tarde, que se retirava repentinamente apressada, deixando a penumbra se alastrar rapidamente, assombreando o lugar. Um ou outro raio de luz esquecido formavam como que pequenas trilhas de fogo, ao longo das cabras, bodes, monstros, anões bizarros, estranhas formas de aspecto feroz esculpidas em madeira que se espalhavam pelo jardim e que, talvez por conta da bebida ingerida pelos visitantes, pareciam estranhamente vivas.
 
O rapaz arrepiou-se e tremeu, ligeiramente amedrontado, mas disfarçou, com medo da reação dos amigos. Sentia-se cada vez pior, incomodado com tudo aquilo. Embora não conseguisse definir o sentimento, parecia-lhe que o desrespeito às coisas demonstrado desde o início da viagem iria cobrar um preço. Não parava de pensar na avó, tentando lembrar alguma coisa que sua mente ancestral dizia ser muito importante, mas ainda sentindo-se um idiota por acreditar nas histórias contadas pela velha.
 
O resto do grupo gritava, alvoroçado com o estranho jardim, brincando de se aterrorizarem uns aos outros, derrubando as esculturas, jogando os bodes ao chão, debochando da feiúra dos anões, batendo nos monstros, pisoteando impiedosamente a grama, e um deles quebrou a magnífica trepadeira que chegava ao teto da casa, aos pés de um imponente São Miguel Arcanjo, finamente talhado.
 
Muito tempo e algum vandalismo depois, eles entraram. Comeram, jogaram, conversaram, sendo o comportamento estranho do rapaz o assunto preferido, com direito a comentários pouco edificantes. Mas, afinal, isso é comum entre amigos.
 
Incomuns foram os estranhos sons vindos do jardim, uma mistura de correntes enferrujadas correndo por roldanas idem, de engrenagens sem óleo e resmungos baixos e raivosos, que contrastava ainda mais estranhamente com o súbito e profundo silêncio que tomou conta das bocas e com a batida violenta dos corações de todos dentro da casa. Nada que se comparasse, porém, à violência das batidas na porta e ao aumento dos ruídos lá fora.
 
Único a ter coragem de se mexer, o rapaz se aproximou da janela. As esculturas, algumas quebradas, outras riscadas, mas todas agora vivas, cercavam a casa, batendo nas paredes, nas janelas, os anões esmurrando a porta, os monstros quebrando o carro com mãos fortes. Eles vêm nos pegar, disse o rapaz. Vão nos matar. Nunca mais desrespeitaremos os mortos. Nem nada mais.
 
A porta tremeu. A cara disforme de um monstro de madeira apareceu na janela por ele quebrada. Uivos selvagens de aclamação foram ouvidos lá fora e gritos histéricos lá dentro.
 
O rapaz revirava furiosamente os baús da memória, em busca da salvação, escondida em alguma coisa contada pela avó, velha, ignorante, roceira, supersticiosa. Baixou a cabeça humildemente, ajoelhou-se. A porta abriu com um estrondo e o bode de madeira maciça entrou correndo, cabeceando com violência uma das moças, quebrando-lhe as costelas. O anão esmurrou um dos jovens, fazendo jorrar sangue da boca ferida, estavam perdidos, iriam todos morrer. O rapaz pediu em nome da avó, temente às coisas sagradas.
 
Nesse momento, o teto estremeceu, e acima de todos os uivos e gritos, ouviu-se um ruflar de grandes asas e um brado de guerra. São Miguel Arcanjo despertara.

Comentários

Erica disse…
Sinistraaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!! Zoraya Agatha Cesar Christie!!!
Anônimo disse…
Nunca mais vou mexer com estátuas ou esculturas. Vai que...
aretuza disse…
de arrepiar!
Anônimo disse…
menina, é por isso que sou devota de são miguel!!!!!!!!!!

são miguel acima, são miguel abaixo, são miguel à esquerda, são miguel à direita, são miguel à frente, são miguel atrás! são miguel, são miguel, são miguel,

VALEI-ME!!!!!!!!!!!!!!

Ana
Anônimo disse…
O cara só lembrou de rezar quando tava a perigo? São Miguel devia ter deixado ele por lá.
Cecilia Radetic disse…
Querida Zo Allan Poe, você está fera em suspense! Pode começar a selecionar as cronicas para uma coletanea.
bjs
Cecilia
Zoraya disse…
Pessoal, obrigada!Bom saber que dei um sustinho. São Miguel é mesmo poderoso e generoso, nao deixaria os coitados na mão só porque lembraram dele no final. Beijos a todos
albir disse…
Zoraya,
Você anda fantástica também no fantástico. Beijos.
Mauro disse…
Zo... FANTÁSTICO. Digna de estar em qualquer coletânea de contos sobrenaturais... vc tem um talento enorme pra isso (e eu sei bem, sou fã desse tipo de história). Mas sei não, hein... será que São Miguel despertou mesmo pra SALVAR?

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