segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

FEIRA >> André Ferrer

Toda semana, um cavalo de batalha. O ponto de partida de uma crônica sempre me pareceu o convívio. Esta pequena cidade, no entanto, desafia-me quando preciso de ideias para um texto. Nas outras onde morei era mais fácil.

Não falo do convívio apenas, mas também dos resíduos que se espalham no entorno do convívio. Uma boa crônica deve ter mais aparas do que qualquer outra coisa. Uma boa crônica só tem

(coragem, audácia, verdade)

leveza se carrega esse tipo de fuligem humana. Outras fontes, infelizmente, são como o petróleo: sabemos da sua finitude, mas não paramos de usar.

Manhã de domingo. Feira. Como pretexto, uma dúzia de tomates e um rolo de sushi. Na macarronada, eu gosto assim: tomate maduro, pitada de curry, pitada de manjerona, água e azeite. Nada de “pomarolas” em plena brainstorm. Na escolha das frutas,

(OK, definitivamente, tomate é fruta)

silêncio monástico

(outro pretexto para vasculhar e apanhar resíduos).

 Blá, blá, blá...

(não, não, isso é particular demais)

 Blá, blá, blá...

(eu passo!)

 Blá, blá, blá...

(irrelevante)

 Blá, blá, blá...

(Yes: falam do Zeca Pagodinho).

Chuchu e beterraba não estavam nos planos, contudo incluí chuchu e beterraba numa salada futura. Os ouvidos apurados. Havia terminado a etapa seletiva. Eu estava decidido a me concentrar na vox populi e, mais tarde, escrever uma crônica.

— Ei, meu chapa: você viu se ele salvou alguém?! Eu não vi. Nem desceu daquela moto invocada. Fita, meu chapa, fita pras câmeras.

— Então, a pessoa não pode ajudar porque é famosa?! Ora!

— Pode sim. Mas que a mão esquerda não saiba o que faz a direita!

— Marketing!

— Tudo bem. Hoje à noite no Fantástico a gente vê se o Pagodinho ajudou ou não aquelas pessoas...

— No Fantástico?! Ele vai aparecer no Fantástico! Pronto: já conseguiu o que mais desejava.

— Parem! — disse o dono da banca. — Peço licença a vocês. O senhor, aqui, quer pesar os chuchus! Tenham dó! Cir-cu-lan-do!

Dispersaram. O mais feroz deles reclamou, mas saiu. Vi-o, então, lá na frente, parado no seu Kishimoto, o velhinho de quem eu compraria o meu rolo de sushi. Paguei, disse bom-dia e me arranquei para o outro lado. Na barraca do japonês eu encontraria, no mínimo, um contraponto, um viés qualquer, enfim, uma cereja para o meu bolo.

— Está bravo né! — dizia o velho para o casmurro quando cheguei.

— Imagina seu Kishimoto! No tsunami do Japão muita gente ajudou. No Brasil, quando ajudam, já tem segunda intenção na parada, marketing pessoal, essas coisas... Eu aposto que havia celebridades ajudando o próximo na tragédia japonesa! E também aposto que o povo do seu país, um país respeitoso e disciplinado, jamais falou mal desses famosos que, tocados, abandonaram a sua zona de conforto e saíram em socorro às vítimas. Por acaso, falaram seu Kishimoto?!

— Não sei. Não estava lá  disse o velho. — Eu nunca estive lá. Meu avô chegou de lá em 1934 e eu nasci vinte anos depois em Piracicaba.


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4 comentários:

Drika disse...

Você me lembrou Ignácio de Loyola Brandão. Já te falei que ele me deu sua caderneta quando esteve em Catanduva? Numa palestra, ao final, disse-lhe que meu sonho era ser escritora. Ele retirou a caderneta do bolso e me deu. Vou colocar no face pra vc ver. Ele disse, durante a palestra, que as mínimas coisas do cotidiano o inspiravam a escrever. Coisas que passam incólumes para uns, não eram para ele. Assim como você! Quem vai à feira e permeia o popular? Você. Interessante a divisão de opiniões e a não opinião sábia do sr.Kishimoto. Onde estamos nesta paridade? Adorei. Boa semana!

Zoraya disse...

Vou passar a olhar a feira de maneira diferente! Divertida essa, André!

André Luiz Ferrer Domenciano disse...

Grato!

albir disse...

O cronista é um andarilho, né, André? E os lugares públicos são o seu habitat.