sábado, 19 de janeiro de 2013

PRECISA-SE DE UM VIOLÃO [Ana González]

As cidades possuem personagens. Algumas delas são figuras típicas por comportamentos diferenciados, mais ou menos estranhos. São muitas vezes caminhantes pelas ruas que acabam por se fazer conhecer por todos. Alguns deles ganham simpatia. Outros provocam medo e até repulsa. Mas todos ocupam um espaço que é só seu nesses cenários em que vivemos nossas histórias.

Como uma curiosidade, quase um exercício de fotografia, certo dia, observando tipos urbanos, flagrei um senhor que tocava modinhas brasileiras à frente da Igreja do Largo de São Francisco de Assis, no centro de São Paulo. Sob um guarda-sol-chuva cor-de-rosa grande, daqueles de praia, ele tocava seu violão não se importando comigo nem com quem passava na rua. Mas, olhou para mim e sorriu. Fazendo pose para a foto? Depois disso, andando por lá, ainda ouvi o som de seu violão sob a sombra colorida.

Da penúltima vez, ele não tocava, estava sentado e quieto. Aproximei-me e lhe perguntei por que não tocava. Então ele me contou que o violão tinha caído de um lugar alto e se quebrara a ponto de não ser possível mais usá-lo. Notícia inesperada e desagradável. A vida e suas surpresas, não é verdade? Disse-lhe que ficara triste e esperava que a situação se resolvesse logo. Mas não pude ir além disso.

Uma ou duas semanas depois, passei por lá e o procurei numa mistura de ansiedade e preocupação. Lá estava ele, sentado em silêncio observando a praça.

Aproveitei a oportunidade e puxei prosa. Nome completo: Antônio Conceição da Costa. Vinte e um anos em São Paulo. Origem: Rio Grande do Sul. A esposa e companheira das missas aos domingos na Igreja falecera há cerca de seis anos. A voz dele embargou quando confessou a ausência que sentia dessa parceria. Contive a vontade de lhe perguntar mais sobre essa pessoa de cuja presença eu nunca suspeitara.

Eu não havia esquecido a história do violão caído. Ela havia colado em mim. E eu não saberia explicar o motivo. Isso ocorre sem que possamos fazer nada contra. Um problema, notícia ouvida no rádio ou lida no jornal, ou ainda na TV. Fica conosco dentro de nossa mente, grudada às nossas emoções.

Então ele me contou de pessoas que se preocuparam em ajudá-lo a arrumar um novo violão. Era nisso que eu estava pensando, embora não lhe tenha dito nada. Como arrumar um violão? E fui mais longe em minha imaginação e acreditei piamente que seria natural que todos o ajudassem. Que tal uma colaboração coletiva? Ainda melhor do que essa alternativa seria uma verba pública muito justa para ele que completa a paisagem e encanta os passantes, em evidente utilidade pública. Não é ele mais útil do que muitos de suas excelências (em absurdo número crescente) nos departamentos públicos federais e estaduais e municipais, renovando a frota de carros ou reformando apartamentos com detalhes de luxo?

Pensei nas redes sociais. Pensei tantas coisas. Mas, o meu tempo e a fraca vontade não têm sido tão grandes como as boas intenções de minha parca generosidade. Quem sabe ainda escrevo para algum jornal? Ou para entidades que trabalham pela cidade? Quem sabe eu mesma não banque o Papai Noel em pleno Carnaval?

Cheguei a imaginar uma placa. Veja se ela está boa: “Precisa-se de um violão. Local: Largo do São Francisco. Para pessoa boa, honesta e de bons princípios que toca de graça e não reclama de nada.” Que tal? Acrescento algum dado? E não consigo parar de imaginar, de argumentar internamente nessa surda revolta contra tais peças imprevistas que interrompem nosso ritmo cotidiano. Na verdade, há mais de uma necessidade, são duas (duas placas?). Há a precisão de uma viola para canções em uma praça no imenso espaço urbano. A outra é a precisão de calma em meu coração agitado em relação às leis naturais da vida e do mundo.

www.agonzalez.com.br

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6 comentários:

FERNANDO disse...

QUE SENSIBILIDADE, ANA. SOU CRONISTA E VIOLONISTA BISSEXTO (RSRSRS). SE MORASSE AÍ EM SÃO PAULO (MORO EM JOÃO PESSOA) AJUDARIA, COM CERTEZA, O AMIGO VIOLONISTA.
FERNANDO

Ana González disse...

Fernando, valeu! Ainda vou ouvir o Antônio da crônica tocando de novo o instrumento musical de sua vida. Onde vc publica suas crônicas?

Alê Moraes disse...

Estou indo para SP, mas somente em abril. O meu violão será dele. :)
Espero que ele possa esperar. rs

Alessandra Moraes

Zoraya disse...

Há também precisao de pessoas que se importem se incomodem, que se mexam. Que bom que pessoas como voce existem!

Ana González disse...

Ale, vc pode entrar em contato comigo? Na indicação do site, tem o meu contato. Agradeço a comunicação.
Zoraia, me questiono a todo momento sobre isso. Não sei se faço o suficiente, nem o mínimo. Espero arrumar um violão para ele. Quem sabe não é um começo? bjss

Terezinha disse...

Oi Ana surpresa? não... Sei que você se envolve nestas questões, mas admiração sim. Que bela iniciativa, esperar dos órgãos públicos, nem pensar eles tem muito que fazer, desviar milhões dá muito trabalho, não sobraria o suficiente para comprar um violão...
Gente como você faz a diferença, quem se importaria com uma pessoa humilde sentado numa praça? Gente como você, me faz ter esperança com o futuro dos meus netos... Grata!
Abraço,
Terezinha