quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O POETA E AS FACETAS DO AMOR
>> Carla Dias >>




Quem acompanha os meus textos aqui no Crônica do Dia, já deve ter lido a respeito dele. Kleber Albuquerque, além de um querido amigo, é dos compositores, dos músicos-poetas que frequentam minha benquerença. Ele está com um novo disco, e claro que eu não poderia deixar de falar sobre ele.

Mil e uma, um montão de, tantas outras, 10 coisas para serem ditas no lugar de “eu te amo”, frase que já vem exigindo mais do que antes, desde não se sabe bem quando, porque se tornou frágil de tanto ser dita porque sim, sem que o sentimento tenha a profundidade da verdade.

O novo disco de Kleber Albuquerque, 10 Coisas Que eu Podia Dizer No Lugar De Eu Te Amo, tem quatorze faixas, não dez. Não é um trabalho baseado na numerologia, mas sim nas inúmeras faces do amor, em todas as suas nuances, acertos e erradas. É um disco de canções que despem o amor na extensão que lhe cabe. Há dias em que o amor ama e há outros em que ele grita saudade. Às vezes ele dói, banca o ciumento, depois o debochado. Há dias de amor e ironia, e de amor pelo filho, pelos pais, pelo país, por uma ideia, por uma ideologia, por um desejo. Há até o amor que se sente pelo amar.


As letras de Kleber Albuquerque se enquadram perfeitamente na sonoridade do disco. Ele é dos poucos artistas que consegue passear pelo rock, pelo samba, pelo pop, e por aí vai, sem perder a identidade ou desandar com a sintonia necessária entre as canções. Em 10 Coisas... ele conta com músicos que vêm colaborando com sua música há um bom tempo, mas também com novas parcerias, o que traz para esse trabalho certo frescor instrumental. O mesmo serve para os parceiros de composição.

A poesia de Kleber continua marcando sua música. O compositor não se atém ao convencional, criando, às vezes com simplicidade deslumbrante, um cenário de emoções diversas. Como em Permitido, na qual entoa, delicadamente, “sabe que o amor é fera voraz/mas sem ter paz não é amor/é vaso sem flor, chapéu sem céu/lápis sem cor, silêncio no breu”. Procura no Google tem um pé na contemporaneidade tecnológica. Kleber se vale da mais importante ferramenta de busca da internet para abordar temas mais profundos: “procura no google/lembra daquilo que te contei/ontem à noite havia uma estrela fora do lugar/pode verificar/eu contei/pra você”. Vazante traz profundidade de mar. Com participação de Elaine Guimarães nos vocais, a canção invoca a fluência das águas para desaguar poesia: “lágrima/água com navalha/migalha de mar/mágoa é água parada/é água parada”. Em Maquinário ele se assume poeta: “sou poeta/que sabe que a morte é certa/sou criança/que sabe que a vida é dança/enquanto dança”. E a poesia continua a se misturar à música, sendo magistralmente conduzida nas outras canções de sua autoria: BesouroCanoeiroConfiança e Ela Tem Fogo.


As parcerias abrilhantam o disco. Tevê, canção que também fez parte do disco anterior de Kleber, Só o Amor Constrói, ganhou um novo arranjo em 10 Coisas... Parceria com Zeca Baleiro, que também participa da faixa, a canção aborda algumas formas de distração que nos impedem de viver a vida com mais propriedade: “um filme na tevê/um corpo no sofá/o tempo pra moer/o vidro do olhar/e a vida a passar/a vida sempre a passar”. Sujeito-Objeto, parceria com Gabriel de Almeida Prado, é um jogo de palavras para dizer o amor perguntando sobre significados aos dicionários Aurélio e Michaelis de forma muito original, assim como ao professor Pasquale. “ei, pasquale/por que o andar dessa menina/sempre rouba palavras da minha boca?/ei, Aurélio/ por que o olhar dessa garota planta versos na minha cabeça oca?”. Devoluto, canção composta em parceria com Sérgio Natureza, e que conta com participação especial de Zeca Baleiro, trata da geografia emocional: “ali.../mapas celestes/de lestes quase orientes/e órion que assiste/ao triste fim da gente”. Brincadeira de Amor, parceria com Sergio Lima, chega ao ritmo baiano: “me deu uma leseira/num domingo em são salvador/mas vou subir a ladeira/pra gente se encontrar no pelô/ó, neguinha, te quero comigo/pra fazer brincadeira de amor”.  Com Lúcia Santos, Kleber compôs duas canções: Terra do Nunca All Star (Single Soul)Terra do Nunca anuncia “antes/que a cegueira me tome/pelo glaucoma/quero ver o amor de perto.” A partir daí, o amor ultrapassa fronteiras, envolve criadores: “quero ver o amor de perto/inventado por da vinci/pintado por michelangelo/com certeza matemática/sem binóculos ou obstáculos. All Star (Single Soul) é uma bela canção que pincela o solitário e sua rotina: “estar sozinho é meu exercício diário/de bordo/aeroporto rodoviária banco de praça/livro de bolso quarto de hotel/tevê a cabo”.

Em 10 Coisas Que Eu Podia Dizer No Lugar De Eu Te Amo, Kleber diz muito e vai além, mergulhando no amor sem ater-se a uma versão reduzida do seu significado e do seu objeto de desejo. O amor, neste disco, é dito, cantado, tocado com a pluralidade que lhe cabe. 

BESOURO - Kléber Albuquerque




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3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, a décima primeira coisa que eu poderia dizer no lugar de Eu Te Amo é que aprendi a amar a música do Kleber por meio do seu amor por ele.

albir disse...

Carla,
eu também sou fã do Kleber desde que você me sugeriu, aqui mesmo, há uns dois anos.

Carla Dias disse...

Eduardo... Acho que você adoraria conhecê-lo, viu? A música é resultado de uma pessoa muito bacana. E os shows dele são muito legais. Quem sabe esse amor todo aporta em Brasília dias desses, não? Espero que sim.

Albir... Que bom, que bom... Ele é uma pessoa muito especial no feitio e no fazer.