Pular para o conteúdo principal

OS CHILENOS >> Fernanda Pinho




Estou há nove meses em Santiago, de modo que já me sinto apta para parir algumas opiniões acerca do povo chileno que, com exceção dos mapuches, não possuem traços indígenas, muito comuns entre os peruanos e bolivianos. Eis minha primeira observação para quem acredita que chileno tem cara de índio. Pois é, não tem.

Os chilenos são muito patriotas. A princípio eu pensava que a enorme quantidade de bandeiras do Chile espalhadas por Santiago fosse devido ao fato de aqui ser a capital federal. Mas à medida que fui tendo a oportunidade de conhecer outras cidades, notei que é um costume do país inteiro.  Costume ainda mais evidente durante o mês de setembro, que é quando eles comemoram as festas pátrias. Nessa época, todas as casas e prédios, comerciais ou residenciais, levantam um mastro com a bandeira. As ruas se colorem de vermelho e azul. Os supermercados, além de decorados com o mesmo motivo, vendem uma infinidade de apetrechos pátrios. Tipo Brasil em época de Copa do Mundo, sabe como? E quando eu pensava que já tinha visto os chilenos demonstrarem todo o seu amor pelo país, me surpreendi ao ver a multidão entoar o famoso grito “Chi-chi-chi-le-le-le! Viva Chile”, à meia noite da virada do ano, na orla da praia onde eu estava.

Os chilenos são cavalheiros. Certa vez recebi um buquê de flores de um amigo do meu marido, que veio à nossa casa pela primeira vez. Um outro me deu uma caixa de chocolates. Acho que no Brasil esse tipo de coisa dá briga.  E se um homem e cinco mulheres estiverem esperando um elevador, ele só irá entrar depois que as mulheres estiverem devidamente acomodadas e, enquanto isso, ele ficará segurando a porta do mesmo (sempre quis usar isso) para que as moças entrem em segurança.

Os chilenos são estressados no trânsito. Acho que são mal acostumados, na verdade. O trânsito aqui nunca para. O máximo que acontece é uma leve lentidão em horários de pico. Já é motivo para buzinaço. E quando a via está liberada, disparam na altíssima velocidade permitida pelo país sem radares. Os pedestres, no entanto, tem prioridade absoluta. Você coloca o pé na rua e pode atravessar a passos de tartarugas. Vão te respeitar.

Os chilenos cortam as palavras ao meio. Pronunciar S ou Z no fim das palavras, nem pensar. O povo aqui é “feli” e não “feliz”. Também fazem contração de palavras. “Naquever” você escuta a todo momento (“Naquever” = “Nada que ver” = “Nada a ver”). Eu que sou mineira (outra raça comedora de sílabas) me acostumei rapidamente com isso.

Os chilenos tem memória política. Me aparece que aqui todo mundo tem um lado. Ou você é Allende ou é Pinochet. E, seja qual for a orientação, o ponto de vista é sempre defendido com veemência. Os chilenos também são aguerridos e organizados. Protestos das mais várias ordens pipocam pela cidade diariamente. Da outro lado da rua, está a embaixada do Japão. Pelo menos uma vez por mês acompanho de camarote os manifestos contra a caça aos golfinhos praticada pelos japoneses.

Os chilenos são formais.  Percebo isso em pequenos detalhes do meu cotidiano – como o fato de um ter uma cadeira fixa na mesa de jantar da família do meu marido – e em grandes acontecimentos – como o fato dos meus sogros terem viajado de Santiago a Belo Horizonte para pedirem aos meus pais minha mão em casamento.

Os chilenos adoram os brasileiros (e as brasileiras, por supuesto). Sabem muita coisa sobre nosso país, nossa cultura, nossa política. E das duas uma: ou já conhecem o Brasil ou estão loucos para conhecer.  Sou sempre recebida com carinho, paciência (sobretudo no início, quando ainda me faltava vocabulário), interesse e um elogio ao meu país. Os chilenos meu confortam. Quase conseguem com que eu me sinta em casa.  

Comentários

O povo chileno é pacífico. Não é Atlântico. Belo texto devidamente compartilhado no Facebook. Abraços!
Ana Gerhardt disse…
Delícia de texto (como sempre), Fernanda! Parabéns!

O Chile e toda a sua civilidade me lembram a Alemanha. Uma das coisas boas de se morar fora do Brasil, é que a gente aprende a entende-lo melhor. É como se fosse um raio-x. Aos poucos a gente comeca a entender o que falta, o que sobra, o que poderia...
silvia tibo disse…
Que bacana, Fernanda!!!
Deu ainda mais vontade de conhecer o Chile...
Seja feliz nessa terra cheia de encantos!
Grande beijo!
Zoraya disse…
Fernanda, é isso mesmo! Passei poucos dias no Chile e tive todas essas impressões que você agora confirma. Deu saudades!

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …