segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

AULA DE DESCRIÇÃO >> André Ferrer


Há um limite para as paixões humanas quando elas provêm dos sentimentos, 
mas não há limite para aquelas que sofrem 
a influência da imaginação.

Honoré de Balzac


A professora pendurou dois cartazes no quadro negro. Casa, riacho e cisnes. Um gato e o seu novelo de lã. O melhor acontecimento da tarde para Luiz Bernardo. Ele estava livre do “Arme e Efetue”.

Aliviado, guardou o caderno de aritmética. O suor da testa escorria para o outro lado, agora, por causa da inversão da cabeça. No próximo ano, de acordo com a sua mãe, ele voltaria ao período matutino. Fabrícia continuaria à tarde. Continuaria por causa da avó, que cuidava dela enquanto a mãe trabalhava. Segundo dissera, os afazeres domésticos rendiam mais para a velha, à tarde, com ela na escola. Ideia estranha, que começava a incomodar Luiz Bernardo.

A sensação que lhe tomava a cabeça também era estranha. O menino costumava ficar invertido até o “limite”. Depois, ele não sabia. Ele tinha medo de descobrir.

No fundo da sala, a imagem de Fabrícia paralisante. O contorno das coisas, devido ao “limite”, já começava a ficar embaçado. Em casa, uma vez, repreenderam-no com inesquecível energia. Perigo enorme se o sangue ocupasse a cabeça por tanto tempo! Ficaria roxo. Desmaiaria. Conforme lembrava, a reprimenda fora desagradável e ajudara-o a fixar o significado de uma porção de palavras.

Toda palavra impressionava-o quando nova. “Limite”, sem dúvida alguma, impressionava-o apesar de já ser uma palavra antiga. Era do ano anterior e a conhecera por causa de um trem que fazia manobras intermináveis e bloqueava o caminho da escola.

— Oh, menino! — Dissera o pai. — Entre no carro. É perigoso! Criança não tem limite. É como este trem a perder de vista...

Então era isso! O que determinava que se visse ou não o fim das coisas era o limite!

Gostaria de usar “limite” na descrição. Endireitando-se, procurou algum motivo para o emprego desejado. Inútil. Nem os pássaros nem a casa davam espaço àquela palavra. No cartaz ao lado, gato e seu novelo, tampouco. Luiz Bernardo adorava escrever. Sentia-se mais à vontade ao compor descrições a partir de figuras do que ao resolver problemas com números. Ele jamais encontrara dificuldade naquele tipo de exercício. Por isso, sentia-se mal. Estava frustrado. Ele não conseguia encontrar uma única frase pertinente às ilustrações na qual figurasse a palavra “limite”.

Olhou para trás e viu no alto da cabeça de Fabrícia como os fios escuros, brilhantes e emparelhados estavam perfeitamente repartidos. Naquele momento, a linda criança também escrevia. Mantinha a cabeça inclinada sobre o caderno.

Luiz Bernardo descobriu, assim, um emprego para a expressão “falta de limites”. O trabalho da mãe de Fabrícia e os argumentos da avó para que a menina continuasse no período vespertino, de fato, aumentavam aquele sentimento estranho, que era desconforto. A sensação de que alguém lhe segurava as costelas quando ele tentava respirar não tinha limites.


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3 comentários:

Zoraya disse...

Ai, Andre, que linda história romântica!

albir disse...

André,
seu menino me lembrou a minha própria infância. Eu também cismava com as palavras e ficava depois tentando empregá-las. Ás vezes dava certo, outras dava em desastre.

Anônimo disse...

Muito Boa sua cronicas André... Esta particularmente achei muito interessante pois mostra sua sensibilidade. Adorei Parabéns pelo Talento.