O ÚLTIMO LUGAR DE ESTAR DO MUNDO >> Fred Fogaça

 

A coisa toda tinha, sei lá, uns quarenta ou cinquenta metros quadrados em cômodos minúsculos, um planejamento todo pautado na ineficiência - ou talvez seja a influência contemporânea dos espaços únicos dando efeito nas minhas ideias - e é o caso que seja muito pouco chão pra esse punhado de gente pisar: a TV miúda de olhar pelo outro lado da sala, a cortina que reserva  um quarto de sala quando o vento bate, sujeira dos outros reservando lugar pra todo canto e eu, tentando apreender, procurando meu lugar de estar.

Eu que até costumava gostar de banheiros, por exemplo, porque banheiro é terra de ninguém e eu, ali no contexto bastante como um ninguém, me sentia incluído. Mas já viu banheiro de apartamento pequeno?

Não tem sacada e de repente é até bom que não tenha, quem ia ser o dono da sacada? Uma vez vi uma sacada que cabia uma cadeira de praia e uma pessoa magra, não dava pra esticar a perna. Cômodo,  sem conforto ali ninguém fica muito - só a conta do cigarro. Mas aqui nem isso tem, e até tem um quarto que queria pra mim mas daí um tanto de coisas pra gato e restos de mobília que não teriam mais lugar. Aqui é tudo muito bem planejado, é um ecossistema abafado mas funciona, com o tempo você pega o ritmo da coisa, é como uma floresta tropical. 

O que eu precisava era de uma vulnerabilidade no sistema, não dava pra contar com lá fora mais, lá fora era assim, coisa de doido, ninguém saia impune de lá fora. Tinha que ser aqui dentro e não tinha sacada pequena. 

Acho que foi quando perdi uma toalha ou encontrei outra, eu não me lembro, eu sei que deixei meu óculos pelo meio do beiral da janela do hall de lavanderia, e lavei o rosto ali mesmo sem molhar o chão como no banheiro, porque a pia de lavar roupa tem essa vantagem de ser grande. Então me sequei ali, na beira da janela que dava pra outras janelas, longe de todo mundo porque o varal e as roupas e maquina e pia, ali já não era mais pra ninguém - o não-lugar, mas me coube. 

Sem justificativa,  descobri meu lugar e soube, nessa hora, o certo a que fazer: comecei a fumar.

Comentários

Zoraya Cesar disse…
"Eu que até costumava gostar de banheiros, por exemplo, porque banheiro é terra de ninguém e eu, ali no contexto bastante como um ninguém, me sentia incluído." - essa frase já valia o texto todo! que texto curioso e bom, Fred!
Carla Dias disse…
Fred, acho que foi um dos textos mais bacanas sobre ter de caber no lugar disponível, e em vários aspectos. Muito bom!

Postagens mais visitadas deste blog

APENAS UM RETRATO >> Sergio Geia

OK? >> Sergio Geia

SACERDÓCIO >> whisner fraga