AS BORBOLETAS AZUIS DO AMOR E DA MORTE > > Zoraya Cesar


Ele olhava, maravilhado, o revoar delas. Tão lindas, pareciam fadas esvoaçantes e diáfanas. Tanta beleza solta pelo mundo, era só querer ver.

Levara quase seis meses para descobrir o esconderijo das borboletas azuis. Um grupo de cientistas enfurnados num acampamento, no meio do mato, do frio e do desconforto, procurando desesperadamente por aquele lugar e fora ele, sozinho, quem o achara. Em seu coração, sentia que era um chamado. Elas o atraíram ao seu encontro. Elas entendiam seu desejo.

A entrada da caverna estava escura e úmida. Os esparsos raios de sol mal passavam por entre as árvores cerradas, deixando o ar frio, quase enregelante. O cheiro de húmus das folhas em decomposição era forte o suficiente para penetrar pelo capuz de proteção. O burburinho do córrego provocava uma sensação quase hipnótica. Um cenário de romance, a natureza em sua mais bela expressão. E o azul das borboletas! Uma estranha e, não obstante, sublime combinação com a verdidão sombria ao redor. O dia estava caindo e ele sabia que as asas começariam a brilhar como vagalumes, ou, melhor ainda, como pequeninas estrelas cintilantes.

Era tudo tão perfeito! Como Mirandinha! Mirandinha e o amor que tinha por ela. Um amor puro, fiel. E como era bonita, a Mirandinha, tão morena,  tão meiga, tão… dele! 

Olhou de novo as borboletas, azuis, azuis. Cor de céu, cor de mar, cor de turquesa, cor de anis. De todos os matizes de azul, revoavam as borboletas ao redor dele. Aquele estranho ser que mais parecia um astronauta.

Seus pensamentos revoavam com elas. Borboletas azuis significavam felicidade, beleza. E também a inconstância, a efemeridade. Tudo era efêmero. A vida, a fidelidade, as coisas. Apertou as luvas mais firmemente e verificou se o equipamento de proteção estava vedado. Estendeu as mãos em concha e esperou pacientemente. Assim que uma delas pousou, fechou a armadilha com um gesto seco e certeiro. Sentiu as asas baterem sofregamente entre suas palmas. Mirandinha também parecia assim, às vezes, uma borboleta enjaulada lutando para sair. 

(As outras borboletas continuaram seu voo, indiferentes à captura. Ele interpretou o ininterrupto bater de asas como um aplauso, a aprovar o ato brutal).

Levou a borboleta entre suas mãos por todo o caminho, sentindo o ligeiro pó que ela soltava. Que sorte, que sorte! 

Ao chegar em casa, fechou a janela, soltou-a. Debalde o pequeno inseto procurou uma saída. Em sua curta vida nunca mais sairia dali. Não morreria sozinho, no entanto. 

Rápido, tão rápido como o desespero, tirou a roupa de proteção e esfregou nas mãos o pó que se depositara nas luvas. E foi até Mirandinha. Ela o recebeu com aqueles olhos negros insondáveis de cigana solerte que o mesmerizavam, as pupilas maiores que  o normal. Uma das suas grossas coxas estava para fora da cama, naquela posição indefinida de quem pode estar levantando ou deitando. Ele sentiu um leve odor de amoníaco. O afogueamento dela o excitou de tal forma que, perdendo toda a vergonha e amor-próprio, possuiu-a violentamente, como há muito não conseguia. Lambuzou-a toda com o pó de borboleta que trazia nas mãos, deixando no corpo de Mirandinha trilhas brilhosas,  uma purpurina extrafina. Ela olhou para si mesma, divertida. Onde aquele maluco estivera? Tava bonito, aquilo, aquele brilho. Ficou satisfeita. O cheiro de um macho apagara o do outro. Deixaria o pó brilhante mais um tempo na sua pele. Estava espalhado na cama também. Que ficasse!

Ele se banhou e tomou um reforçador de imunidade, sabendo que era inútil, serviria apenas para retardar o inevitável. Mas ele não poderia partir sem ver… não, não, não. Tinha de ter um pouco mais de tempo antes de terminar sua tarefa. 

Procurou a borboleta pela casa, Encontrou-a cansada, grudada ao vidro da janela, olhando para a liberdade da qual jamais tornaria a usufruir. Ele sorriu. Não era assim a vida? Um dia lhe roubam a felicidade, a confiança, a possibilidade de voar? Não fora assim com ele também, quando descobriu que Mirandinha o traía descaradamente com vários colegas de laboratório, ali mesmo, no acampamento? Muitas vezes na sua própria cama? Desgraçados. 

Ele até pensou em mandar Mirandinha embora e ir, ele mesmo, para outro acampamento de pesquisa. Seria tão humilhante, sabia, e inútil. Aonde quer que fosse, chegaria com a pecha de corno. Corno. Corno. 

Corno. 

Ele não se conformava. Amava-a tanto. Sempre a pusera num pedestal.

Corno. 

Foi então que ele as encontrou. Papilionem caeruleum mortale. As borboletas azuis mortais. Um nicho repleto delas! Exatamente o que a equipe de cientistas procurava. Todos saíam em busca delas, com suas roupas de proteção, o medo correndo nas veias, pois encontrá-las podia ser sinal de vitória ou morte. O lindo e brilhante pó produzido por seu bater de asas continha um vírus letal e de ação rápida. Provocava uma morte cruel e feia. Muito feia. Demorou até a comunidade científica descobrir a causa das mortes naquela zona rural. E encontrar onde habitavam as borboletas estava sendo um desafio difícil e demorado. Mas não para ele. Ele fora premiado. 

À noite, avisou Mirandinha que só voltaria na manhã seguinte. Regressou à gruta das borboletas. Mesmo naquela noite sem lua, mesmo no meio do mato, mesmo estando a gruta escondida atrás de uma rocha, mesmo com todas essas dificuldades e muitas mais, ainda assim ele reencontrou a gruta. Talvez o fogo de seus olhos ardentes e febris tenha iluminado o caminho, talvez um radar extrassensorial ou uma afinidade incomum com as borboletas, ou o brilhar de suas asas, talvez alguma coisa assim, qualquer coisa assim, o tenha favorecido.  

Capturou um panapaná (sempre achara aquela palavra tão intrigante!). Durante a madrugada, sob a proteção de Morpheus, que a todos tocara, espalhou o pó brilhante e mortal meticulosamente pelas tendas, casas, laboratório, cuidando de esfregá-lo em todos os locais que poderiam contaminar as pessoas. Onde pôde, soltou borboletas dentro de algum aposento. Ele não queria saber quem morreria. Todos mereciam morrer, pelo simples fato de saberem que ele era corno. 

Voltou para casa ao amanhecer. O cheiro de amoníaco estava presente - de novo! -, mas Mirandinha dormia o sono dos inocentes, roncando, os grossos peitos à mostra. Ele a comeu mais uma vez. Ela não participou da brincadeira, mas aceitou, tranquila e apaziguada. Um macho nunca é demais. 

Os sintomas dela começaram cedo. A pele levemente azulada, craquelando, ressequida como o solo depois de um longo período de seca. Parecia estar envelhecendo 30 anos a cada dez minutos. Os dentes amoleceram. Ela gritava, horrorizada. Olhou-se no espelho, as gengivas sangravam como uma vampira decadente. Depois, foi a vez das unhas. E a dor! Antes de chegada a tarde, todo o acampamento parecia ter sido tomado por uma alcateia de lobos torturados, uivando em agonia. Ele também sentiu que o remédio que tomara perdia o efeito, cada vez mais velozmente. 

De repente, teve uma ideia. 

Procurou a borboleta que trouxera. Ali estava, ainda, grudada à janela. Ele abriu o vidro. A borboleta bateu as asas numa última esperança, e caiu. Ele a olhou com quase pesar. Destino é destino.

Arrastou-se para o quarto, os músculos enrijecidos e pesados. Uma outra Mirandinha estendia-se na cama, exaurida e inerte. O vírus era misericordioso. Depois de alguns minutos de dor quase insuportável, deixava a vítima semiconsciente, aguardando a morte no fundo de sua mente. Ele ainda teve forças para botar um espelho na frente dela, queria que sua última visão fosse o monstro que ela se tornara, uma velha azulada e sem dentes, sem unhas, sem fulgor nos olhos, sem fogo entre as pernas. Quem a desejaria agora? 

Mas ela não viu, não via mais nada. Ele também estava com a visão turva, sabia que sua hora chegaria em breve. O que faria nesse pouco tempo? Deitou-se ao lado dela, abraçando-a. Sempre a amara tanto. 









Comentários

branco disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
branco disse…
seus contos sempre tão agradavelmente imprevisíveis... desta vez, e este conto, novamente imprevisível, e passou a ser o meu preferido. o motivo? alguma coisa me diz que existem mais entrelinhas na traição do que posso captar. Soberbo !
Marcio disse…
Modo cretino ativado:
“Hehehe... hoje é dia de fazer comentários escrotinhos depois de ler o texto novo da Zoraya!
Hmmm... vamos ver qual é o tema de hoje.
Ué???? Tetxo fofinho????
Puxa, que lindo! Borboletinhas azuis. Minha cor favorita é o azul. Nem sei o que escrever para zoar nos comentários.
Mas... epa! O texto começa a insinuar que Lady Killer não se rendeu à beleza exuberante da mata, do riacho, da gruta, das borboletas! E, além do cheiro de morte, há também os mistérios do baixo ventre envolvidos! Isso está ficando bom!”
Modo cretino desativado.
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A (Zoraya) Cesar o que é de (Zoraya) Cesar: mais um excelente exemplo de sua enorme capacidade de descrição e de criação de universos ficcionais. Parabéns, mais uma vez!
Só peço que mantenha esse texto longe dos olhos de grandes potências militares. Essas borboletas seriam uma arma biológica incontrastável.
Erica disse…
Ah não!... E pensar que minha cor preferida era o azul... Esse corno foi maquiavélico! E ainda estragou a imagem tão poética das borboletinhas azuis... tão lindinhas que eram... Tudo bem que a Mirandinha mereceu, mas podia ter sido uma daquelas mariposas bem feias, aquelas que chamam "bruxas"... Ah, tá.. mas a Zoraya gosta de bruxas, não ia fazer isso com as pobrezinhas rsrs Então estamos combinadas assim...
Bem, o que dizer? Onde é mesmo que encontro a gruta das borboletas?

Kkkk, vc é incrível, Deusa!
Carla Dias disse…
Zoraya, a cada dia mais afiada na navalha das tragédias românticas. Uma enredo bonito de se ler, mas só até o terceiro parágrafo, quando borboletas se tornam parte de um plano daquilo que chamam de amor, mas nunca foi amor.

Muito bom!

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