AO LADO >> Carla Dias


Às vezes, o outro perdia a paciência, e as veias saltadas em suas têmporas avisavam que era melhor mudar de assunto. Ele mudava, falava sobre os carros antigos que o irmão sempre gostou de admirar. Talvez esse cuidado tenha rendido mais alguns anos de vida ao outro, que os gastou amplificando os problemas simples, de soluções disponíveis.

A voz do irmão sumiu da playlist dos sons que lhe acalentavam. Lembra da entonação, do ritmo, das palavras escolhidas com a frequência de quem deseja tal intimidade com elas. No entanto, saber que essa lembrança é apenas uma repetição patrocinada pela saudade o faz sentir mais prisioneiro do que comovido.

Aliás, poucas coisas o comovem. Nasceu assim, despido da versão intensa dessa qualidade. Na morosidade da sua comoção, agiliza o que a maioria deixa passar no momento do espanto, do desarranjo emocional, dos assombros superlativos.

A senhora do apartamento ao lado depende dele. Sua família não entende a insistência dela em permanecer na solidão daquele lugar com vista da área de serviço cada vez mais atrapalhada pela verticalidade dos prédios. Para eles, passou da hora de ela aceitar as limitações que recebeu da vida como prêmio por sua duração, e ir para um lugar que a atenda melhor. 

Ou como ela diz, “que os atenda melhor”.

Ele é convidado para jantar todas as terças. Mesmo quando ela está se sentindo fraca  - os noventa e muitos anos lhe doendo nos ossos -, ele abre a porta e entra, sempre no mesmo horário. A comida está na mesa, fresca e saborosa. Em dias de dores, e um pouco de depressão, porque não é fácil sentir o próprio corpo lhe boicotar a existência, ele janta sozinho, depois lava a louça, senta-se por algum tempo na sala, e, antes de ir embora, aproxima-se da porta do quarto e pergunta se ela precisa de alguma coisa. A resposta é sempre a mesma, não importa a intensidade do que nela dói:

- Tudo bem, meu filho. Pode ir para sua casa e descansar desse dia.

A filha dela não gostava dele, mas conhecia e admirava seu irmão, de quem pensa que é um amigo que permitiu que ele vivesse ali.

A insistência do irmão ecoava no seu apartamento, batendo nas suas paredes, desestabilizando o silêncio. A família dela também insiste, mas para que ele, a única pessoa a quem a senhora ainda escuta, a convença a se mudar para um lugar que ajude na sua contagem regressiva.

A família dela busca pela perversidade no homem de solidão aprofundada do apartamento ao lado. Escutou comentarem sobre ele pelos corredores do prédio. Sabe o que pensam: desagradável, nem olha direito para as pessoas, cumprimenta sem qualquer entusiasmo, não comparece às reuniões de condomínio, não compartilha suas experiências com os outros. Mas ele não é de se enfadar ou se comover na conta dos incômodos. Prefere deixá-los às voltas com seus fantasmas inventados.

Apareceu usando sua roupa preferida, os lábios murchos e desalinhados, coloridos de vermelho-escândalo. Vestiu a mesa com a toalha mais bonita, presente da neta que não vê há um tempo que lhe desalenta, e que acoberta a saudade torturante que lhe habita. Arrancou da dor física o direito ao alívio, a fim de comparecer ao compromisso das terças, na sua própria sala de estar.

Sentaram-se na sala, depois de um jantar agradável, de conversas leves. Ela colocou para tocar o disco de sempre. Ele gostou de Walls and Bridges. Ela escolheu a canção Bless You como sua preferida, mas também apreciava bastante a preferida dele, Scared. Confessou a ele, um sorriso de acompanhamento, que, em um dos seus sonhos, casou-se com John Lennon e estragou os planos de Yoko Ono.

Conheceram-se no corredor, no dia em que ele decidiu ficar na cidade e ocupar o apartamento que não usava há muito tempo. Ao ver aquela senhora sentada na escada, os sapatos fora dos pés, a bolsa largada de lado, o olhar desconfiado, sentiu a curiosidade tomar conta e foi logo puxando conversa. Não precisou muito e ela começou a contar sua história.

Tinha perdido a chave e esperava a filha que lhe traria uma cópia. Ele a convidou para entrar e passaram as horas conversando, até a filha chegar com o humor de quem atravessou um país, a pé e contra a vontade.

Havia tanta energia nela, que, pela primeira vez, ele se permitiu compartilhar. Gargalhou, extasiou-se e chorou com ela. Na pior hipótese, aquela mulher sabia mergulhar nas pessoas, e ele aceitou correr o risco.

Comoveu-se.

Naquele dia, tornaram-se melhores amigos. Um mês depois, ele se mudou para o apartamento ao lado. Desde então, eles cuidam um do outro.

O irmão insistiu para que ele desfizesse o engano. A mentira começou a espezinhar o seu espírito, quando soube que sua vida duraria menos do que as parcelas do IPTU de sua casa daquele ano. A insistência passou de sazonal para diária, entre tubos e fios, lágrimas que o faziam se curvar a elas; o medo a postos, a fim de apequená-lo. Até que a mentira se tornou a única coisa que o irmão ainda conseguia suportar. Então, alimentou-a.

No dia de sua morte, o irmão confessou que que finalmente compreendera que o peso da mentira que ele tecia deslizava brando sobre o corpo da realidade. Que no final, o final é o mesmo para todos, mas o dele e o da senhora do apartamento ao lado poderiam ter um caminho melhor.

Escolheu deixar a filha da senhora do apartamento ao lado com sua versão sobre ele; que a incrementasse, usufruísse dela para alimentar sua falta de vontade de lidar com a história de sua mãe. Soubesse da verdade, certamente daria um jeito de colocar fim nos encontros de terça. 

Fez o irmão jurar que não revelaria à filha da senhora que ele era dono do apartamento, do prédio, do quarteirão e de algumas lojas que ela adorava adorar. Ela também adorava adorar o irmão dele, porque acreditava que ele era o dono do apartamento, do prédio, do quarteirão e de algumas lojas que ela adorava adorar, um sujeito gentil, que permitia ao melhor amigo ocupar um dos seus imóveis, aquele onde ele costumava passar os dias em que dormia na cidade.

Tornaram-se amigos. Sim, um do outro. Porque ele não é de se comover, mas por ela, a comoção tem sido a terceira parte dos encontros de terça. Com ela conheceu a música, mas também a paixão de quem a aprecia. Viu centenas de fotografias do século passado, várias vezes, enquanto ela apontava, nas imagens, dados históricos ocorridos durante o apaixonar-se de seus avós; datas comemorativas que nasceram no mesmo ano que seus netos. E também a doçura daqueles que a escutaram, nas dores e nos horrores da guerra; nos desvarios e incompetências das batalhas pessoais; nos solavancos das tragédias.

Sabe que a mente dela não acompanhou a deterioração de seu corpo. Compreende que ela duraria pouco em um lugar onde não coubesse com seus desesperos, suas lembranças, as nuances das suas conquistas, as navalhadas das suas perdas. Quem passou muito tempo sem caber em algum lugar entende. Ele a entende. 

Tornaram-se melhores amigos, improváveis nas definições, sinceros no que sentem, afins no medo de suas mentes secarem antes de seus corpos. Couberam naquelas terças, naquele ritual, naquele disco. Em cada história compartilhada.

Seu irmão morreu em uma sexta-feira. Ela tocou sua campainha e insistiu para que viesse jantar. 

- Hoje é terça, meu filho - disse, a voz carregada pela tristeza que sentia por ele. - Para mim, sempre será terça quando você quiser ou precisar.

Ele adorava escutar aquele disco ao lado dela.




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