NO MESMO SOL >> Sandra Modesto


 






No mesmo sol da manhã surgia a dor quente.

No mesmo sol que a dor esquentava o dia cortava o meio.

O dia estava indo e a dor nada.

No mesmo céu que cortava o sol ninguém olhava a noite, a dor, o rasgo, o bafo, o trago, o avanço, a lente, a caricatura, os traços fortes.

No mesmo sol diferente a remitente canção que ninguém ouviu.

Na mesma canção, um menino chorava de fome na rua, uma mulher dizia sobre o “escorregão no chão”.

Um homem bradava - se homem.

Uma história era esquecida.

Beijos nunca mais. Abraços nunca mais.

Silêncio. O sol estava fraco.

No mesmo sol da manhã


Este texto faz parte da antologia Elas e As Letras : Diversidade e Resistência  ( 2019)


Comentários

Laércio disse…
Na simplicidade das palavras um belo poema. Parabéns!
Zoraya Cesar disse…
Gente, gostei muito desse. Em cada linha, a possibilidade de mil desdobramentos! De mil histórias escondidas, querendo ser reveladas.
whisner disse…
Texto forte, Sandra, cheio de significados. Gostei muito.
sergio geia disse…
Sandra, seus textos sempre são enxutos e densos. Admiro essa sua capacidade de mutação, alternando imagens numa mesma frase, brincando com os sentidos das palavras. Nesse e em tantos outros. Tento aprender um pouquinho com você.

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