Ernestina >> Alfonsina Salomão

- Mamãe, com quantos paus se faz uma canoa?

Ernestina estava lavando louça quando Samira fez a pergunta. Achou que tinha entendido errado. Pediu para a filha repetir.

Com quantos paus se faz uma canoa?

A pequena tornou a perguntar, mirando-a com seus olhos redondos. Os olhos de Samira eram enormes. Ainda bebê, ela já intimidava os adultos sobre os quais pousava o olhar. Não havia em seus olhos nada de acusador, ao contrário, eles eram doces, ingênuos. Olhos de cervo. Talvez fosse a franqueza do olhar que atordoasse. Onde já se viu olhares tão pouco dissimulados? Olhares que iam direto ao peito, como flechas bem lançadas. Ernestina ainda não sabia como, mas um dia teria que explicar à filha que era falta de educação olhar com tamanha sinceridade.

- De onde você tirou isto, filha? – perguntou, sem desviar a atenção dos pratos. Estava um dia bastante quente, era um prazer mergulhar as mãos na água fria, deixar o sabão escorrer da louça para os dedos. Embora nunca houvesse elaborado este pensamento, Ernestina achava que havia algo de sensual na atividade de lavar pratos. 

- Ouvi na televisão: “Você vai ver com quantos paus se faz uma canoa” – Samira respondeu, mudando a voz.

A televisão... Não deveria deixar a menina tantas horas por dia na frente da tela. Mas era um descanso tão bem-vindo, aqueles momentos que a filha passava no sofá, hipnotizada, sem a fitar com seus olhos imensos, sem fazer perguntas enjoadas. Com quantos paus se faz uma canoa... Com quantos paus se faz uma canoa? Ernestina não sabia. Ela nem sabia ao certo o que a expressão queria dizer. Havia algo de vingativo nela: Você vai fazer com quantos paus se faz uma canoa! Como se a pessoa ouvindo isto não soubesse o custo do viver, como se ela fosse uma incapaz que de repente se via na obrigação de se virar, de ganhar o próprio dinheiro, comprar a própria comida. Será que era isto mesmo? 

- Com um só - respondeu. Olha as canoas dos índios: eles pegam um tronco de árvore bem grandão, fazem um buraco e pronto, vira uma canoa.

Ah, se as coisas fossem tão simples... Se fosse necessário apenas um belo tronco para fabricar a canoa que te levará tranquilamente vida afora... Como se a existência não fosse obstruída por um emaranhado de paus a desbravar, alguns apodrecidos, outros, serpentes adormecidas, poucos fidedignos e fortes o suficiente para aguentar a travessia. 

Mas a filha pareceu satisfeita com a explicação. Agradeceu a mãe e foi procurar um pedaço de pau no quintal, decidida a fazer uma canoa para a Barbie. Ernestina ficou ali, ensaboando e divagando... Não sabia com quantos paus se faz uma canoa. Aliás, não sabia fabricar canoa de espécie alguma. Não entrando em canoa furada, já está bom demais - disse para si mesma, libertando uma gargalhada gostosa, de quem entendeu que controla muita pouca coisa na vida.

Comentários

Zoraya Cesar disse…
Alfonsina, gostei demais dessa! E que pessoa especial, especialíssima, deve ser a Ernestina, pra achar graça, do fundo de seu ser, ao tomar consciência de que controlamos muito pouca coisa na vida. Uma descoberta que deveria ser apavorante e ela tira de risos! Ela deve saber sim, como nao embarcar em canoas furadas. Uma delícia de ler no final da noite.

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