quarta-feira, 12 de março de 2008

GIRÂNDOLA >> Carla Dias >>

Percebo na idade das perdas os motivos claros e constantes das minhas buscas.

Não desisti das estradas a perder de vista, dos horizontes açoitados por pores-do-sol. Continuo a economizar tempo para gastar essas fichas em outros lugares; naquelas lonjuras nas quais uns e outros jamais ousariam estar. Às vezes, essas lonjuras estão no mapa e me levam a outros estados, outros países; levam-me aos impessoais quartos de hotéis, onde remôo desejo de voltar para casa, mas sem saber ao certo se meu destino de volta é o meu lugar... O meu lar. Outras vezes, elas fazem parte da geografia da minha imaginação.

É realmente curioso como o tempo nos aborda. Diferente do que pregam os entendidos, os filósofos, cientistas, pais, políticos; é preciso viver o tempo para compreender que jamais saberemos como ele passará para cada um de nós. No fim das contas, estamos sempre à mercê dos mistérios.

Notei, ainda há pouco, que não engravidei de filhos; as crianças não correm pela sala, não me endoidecem com tombos ou encantam com as brincadeiras... Não há gargalhadas delas aqui, nem seu choro que sempre é sofrido, porque dói desejar colo e não recebê-lo a contento da necessidade. Não há herdeiros para as histórias preferidas, ou para passar adiante a tradição da minha infância: bolinhos e chá em dia de chuva, os pés sendo massageados pelas mãos que oferecem conforto; as meias que foram esquentadas a ferro para enganar o inverno.

Não engravidei de filhos, mas sempre me inspirou a vida essa criação. Minha mãe me ensinou a ser filha; minhas irmãs e irmão me ensinaram a ser irmã; meus sobrinhos me ensinaram a ser mãe e, para as travessuras e chamegos, tia. E eu sempre disposta a aprender, como se mais do que elaborar a própria biografia, eu estivesse preenchendo o vazio com o qual todos nós nascemos.

Então, eu engravidei de tantas possibilidades, restando-me dar vida à arte para ser quem sou e em quem me transformo, constantemente; torcendo para que eu faça sentido a alguém mais que não somente – e fragilmente - a mim mesma. Porque a arte me ensinou a ser humana, e minha humanidade gosta de companhia, apesar de também apreciar algumas facetas da solidão.

Volto ao vazio... Preenchê-lo requer um jeito que nem sei se realmente tenho. Nesse balaio, incluo todos os que eu aprendi a amar. E ao prestar atenção no que me levou a esses apaixonamentos... As sutilezas: gestos, palavras soltas, um olhar, a presença na hora certa, mas sem consciência dessa importância. Minutos de silêncio a contemplar ruas e multidões; e a versão breve da imensidão dos desertos. Também lá estão as decepções e as mágoas, delineando fragilidades na minha existência. E a tristeza: a morte de um amigo, dos irmãos; o despreparo ao lidar com o desafeto (há como se preparar para recebê-lo?)... A distância, apesar de estar ao lado. Quando é preciso ser tão somente o observador das fatalidades: o impotente.

Falo sobre mim, mas e você? O que o cerca ostensivamente e difere de quem você é neste agora? E o que, apesar de disfarçar tão bem, você deseja conhecer melhor? O que há de belo e não está ao seu alcance, mas ainda assim é importante, porque o faz pensar em chegar a algum lugar, justo quando dizem que você não sabe mais dar passos adiante?

Confesso que me interesso pelas prisões: a moça que se permite amargurar porque não cabe num padrão de beleza, então nem um ou outro se dedica a conhecer o belo que ela traz dentro de si. O moço que revira mágoa por não ser capaz de cuidar de si mesmo, trabalhar num emprego decente, conquistar seu espaço. A criança de olhar apagado, adulto, que já sabe declamar necessidades de rua. As prisões existem e cada um de nós escolhe em qual delas passará algum tempo. E o segredo está em nos apossarmos da liberdade, antes que as prisões nos sufoquem. E nos definam.

Exorcismos são necessários.

Imagem: www.freedigitalphotos.net


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9 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, sua crônica já estava indo linda e bem... (você tem a qualidade apreciável de revelar necessidades sem lamentar-se de si e, principalmente, dos outros) mas quando chegou em "O que há de belo e não está ao seu alcance", eu tomei um susto. :) Porque hoje, pelo meio da manhã, eu senti o impacto do belo que não está ao alcance e falei pra mim mesmo: "Eu tenho que...". Grato pelas palavras sempre massageadoras do pé do ouvido e pela sincronicidade. :)

Drika disse...

CArlinha, suas palavras sempre emocionam...

Marisa Nascimento disse...

Carla:
Você tem um jeito todo especial de mexer com emoções, até então trancafiadas.
Ler você faz com que eu encare o meu espelho pessoal de frente.

joão disse...

Carla, sua crônica tanto emociona como mexe com meus segredos!! aqueles que escondo e acho que ninguem os vê!!ilusão!! bejãodojão

Anny disse...

So tenho uma coisa na minha mente neste momento "UAU"...Estou sem palavras.
Sua cronica realmente foi tocante(ps: eu nao sou emotiva - mas essa foi um tapa na cara.)
Realmente te adimiro MUITO.
beijos e
bons ventos do outro lado do mundo para ti.
love
Anny J

Carla Dias disse...

Eduardo... Fico muito feliz quando essa coisa de sincronia acontece. Acho que tem a ver com a abertura que damos à vida de se manifestar claramente dentro da gente, e isso é bom, não? Que o seu belo repleto de lonjuras se achegue logo.

Drikota... Você é muito gente boa. Ao se emocionar com o que escrevo, só me faz pensar que a escrita vale mais, muito mais do que sempre imaginei.

Marisa... Acho que escrever me ajuda a também encarar o meu espelho pessoal de frente. Que bom que há essa afinidade entre nós, não?

João... Os segredos... Acho que o grande barato em tê-los é a idéia de que, dia desses, encontraremos com quem dividi-los.

Anny... Obrigada por me ler mais uma vez. Saiba que sou admiradora da sua arte e ela já me inspirou a escrever. Saudades de tê-la em terras brasileiras para jogar conversa fora, ler runas e repensar importâncias da vida.

Debora Bottcher disse...

Carla, querida,
Tâo difícil se apossar da liberdade depois de, sem querer, estarmos aprisionados num círculo vicioso que soa impossível de romper! Eu às vezes luto com isso: recuperar essa liberdade perdida, esquecida num canto, 'arruinada' por tantas obrigações impostas pelas nossas escolhas - aquelas, que a gente não sabia bem que desaguava numa enorme contradição...
Liberdade, às vezes, parece apenas palavra de dicionário, tão distante do alcance se encontra... Beijo enorme. Texto muito reflexivo - como sempre. :)

Carla Dias disse...

Débora... É difícil sim se apossar da liberdade, afinal, somos cercados por compromissos que nos prendem, não é? Nossas prisões particulares... Porém, há liberdade em tudo o que fazemos, até mesmo nas escolhas. É preciso exercitarmos a liberdade, nem sempre como algo avassalador que chega e resolve tudo. Às vezes, é preciso alimentá-la com sutilezas. Cultivar a liberdade é uma necessidade que fala baixo, mas nem por isso não se faz entender.

Alexandre Lobão disse...

Oi Carla!

Parabéns pela crônicas, muito inspiradas e inspiradoras!

Saúde, Sucesso e Sorrisos!