segunda-feira, 3 de março de 2008

PELA MANHÃ, A GATA MIA >> Maurício Cintrão


Todas as manhãs, lá pelas seis horas, a Bela, a gata da família, pede ração aos miados. Ela começa a miar lá fora, no corredor que liga a garagem à área de serviço. Se não consegue mobilizar um de nós, entra na casa e vai miando. Mia na sala, mia na cozinha, mia no corredor que liga os quartos até chegar na porta do meu quarto.

Ela só pára quando um de nós levanta (em geral sou eu) aos reclamões: “fica quieta, Bela, você vai acabar acordando o Pedro”. Mas a Bela é mais esperta do que todos nós, pois sempre repete o mesmo ritual e eu sempre reclamo do mesmo jeito. Mesmo assim, levanto e vou levar ração para ela.

Levantar reclamando é coisa de humano cabeçudo. Porque a Bela nem liga. Ao contrário, ela já percebeu que sua estratégia funciona bem. Miar até acordar um de nós resolve seu problema matinal. Ganha a ração e pronto. Acho até que minhas imprecações soam como música aos seus ouvidos. Se estou reclamando é porque vem ração por aí.

O mais incrível é que ela só dá meia dúzia de mastigadinhas. Toda aquela miação é só para cumprir seu ritual de final de noite, início de dia. Belisca uns pouquinhos de ração, dá aquela espreguiçada sem vergonha, faz um giro de reconhecimento pela casa e se enfia em algum cantinho escuro para dormir. O prato de ração fica praticamente cheio.

Ela vai dormir quando eu tenho que acordar. Eu poderia dormir mais meia hora, mas não durmo, porque a gata mia pedindo ração. Nem posso me consolar com a idéia de que ajudei a acabar com a fome de um bichinho, porque a safada não está com fome, está habituada.

Já tive vontade de acordar a Bela antes de ir para o trabalho. Só de vingança, para ela ver como incomoda. Mas não fui. Não porque tive um lampejo de bom senso, mas porque costumo pensar muitas besteiras pela manhã. Uma delas conteve meu instinto sádico. E se a gata acordar incomodada e resolver me dar ração? E ainda reclamar: “pára que você vai acordar o Pedro!”.

Calma, amigo, não sou louco. De manhã eu penso muita besteira, já disse. Agora, cá entre nós, a gata é esperta. Já imaginou? Ela sai do seu cantinho miando incomodada, vai até o pote de plástico, abre e serve um copinho de estrelinhas e quadradinhos de carne sintetizada.

Imagine comigo. E se isso acontecesse? Eu faria o quê? Tudo bem, eu não experimentaria a ração. Mas espreguiçar e dar mais uma dormidinha, ah, isso eu não agüentaria...

Melhor ir trabalhar logo.



(Nota do autor - amigos leitores, não sou malcriado, só não sei como responder aos seus comentários; saibam que estou adorando)


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6 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Ai, Mauricio!
Amei sua crônica!
Tenho três gatos, um deles filhote e o danadinho parece um relógio. Todo dia às cinco e trinta da manhã começo a ouvir a choradeira dele.
Gatos são esses bichinhos indomáveis e apaixonantes.
Ótimo texto!

Anônimo disse...

Claro, Maurício, que vc não é louco. Eu já pensei coisas bem mais estranhas do que a sua imaginação a respeito da Bela acordar e lhe oferecer ração. Na minha cara ninguém ainda me chamou de maluca, se bem que nem todo mundo aprendeu ainda ler o pensamento alheio... rsrs. Beijos pra sua "Gatinha"

Dilma disse...

Rício,

Fiquei no anonimato involutariamente, de forma explicita mando agora os beijos para sua Bela Gatinha.
Dilma

Anônimo disse...

Parabéns brody, estou gostando de ver novamente seus textos e agora tb com seus belos desenhos.
bjs
Marquim

Maggie disse...

Bom dia Maurício, adorei esta crônica. Não tenho gatos, mas tenho uma poodle que não mia, piorrrr ela late feito louca todas as manhãs, só por causa da ração e acabo reclamando como vc. Enfim, às vezes fico tão brava que depois me sinto mais cachorra do que ela...rsrsrsr.
Beijos procê, pra Vivi e pros seus filhotes.

estrela disse...

Olá primo Mauricio,

Adoro gatos! Nós aqui no Moinho das Figueiras (onde seus bisavós viveram e morreram), temos sempre vários gatos a quem damos inteira liberdade, neste momento estão cá 5 gatos (4 gatas e um gato) e temos Histórias de encantar...desde 3 gatinhos que mamaram numa cadela, porque sua mãe desapareceu...e uma das gatas é linda tem um olho verde e outro azul, dúvida? eu envio se for possível fotografia!!!
Que crónica tão linda!!!
Um abraço, Belmira Estrela