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GRAFITEIROS [Ana Gonzalez]


É assim em muitas cidades. Andando por elas, nos deparamos com paredes sujas, cheias de rabiscos, linguagem obscura, símbolos enigmáticos, sem significação para nós, leigos no assunto. Muitas vezes, porém, tais rabiscos chegam a ser formas em representação de interessantes cenas e personagens.

Frente a essa manifestação cultural, podemos sentir indignação, revolta, tristeza, e até alegria, no caso dos grafites coloridos terem o condão de nos motivar. Emoções como essas sentidas por nós também podem estar em sua origem.

São, na verdade, a vida se marcando anonimamente nos espaços urbanos, atrás desses traços caóticos. Caóticos apenas para nós, bem entendido. Os responsáveis, participantes de turmas - gangs? -, com certeza, sabem o que estão fazendo, insistentemente sujando ou colorindo praças públicas, lugares insuspeitados de difícil acesso, o topo de prédios altos, gastando tintas, sprays, tempo, muitas vezes se colocando à mercê da autoridade pública.

E essa vida anônima, desrespeitosa e atrevida, agressiva, pede passagem. Não deixa por menos: entra pelos vazios e ocupa o que pode e até invade o que não pode. Numa comunicação muda e silenciosa. Presença marcante.

Com cores ou com gritos escuros, parcelas de letras, pedaços de gestos, formas e personagens, os grafiteiros estão lá. Ilustram os possíveis vazios, enchem de cores os muros e paredes. Em forte busca pela expressão, também fazem o bonito, nos presenteiam com a beleza. E acontecem assim – quase - ensaios artísticos, inaugurando estilos e uma estética original.

Dentre esses últimos, alguns já foram parar em exposições. Fenômeno mundial, em cidades de todos os tamanhos. De todos os tamanhos também a perplexidade de quem assiste à cidade como um teatro vivo. Acontecimentos são cenas, e pessoas, personagens. De qualquer forma, de todas as formas. Espécimes de arte anônima, paixão, ou revolta, ou tormento. Vida urbana de cor e dor.

Passante, dialogo com os autores que me tiram da rotina. Imagens e cores provocantes, em meio a movimentos distraídos. Novas ruas, praças, avenidas, viadutos e ruelas, que ganham outra representatividade. Tintas e sinais mal encobrindo a porta, o balaústre, as paredes - ou pedaços de paredes -, as colunas, as janelas.

Presenças, autores da cidade, e eu, cúmplice, que - ai – tem seu olhar conduzido em fantasias ou pesadelos, na criação de imaginações.

Imagens: Grafite em Valparaíso (Chile), Ana Gonzalez; Graffiti Artist, Tanya Constantine

Comentários

Debora Bottcher disse…
Interessante esse olhar para os grafiteiros. Eu, pessoalmente, quase não reparo nessa paisagem que se escreve nas paredes - gosto de paredes brancas e essa 'poluição' de imagens me embaralha os olhos. Talvez me falte esse olhar poético que a vc é tão peculiar... Talvez seja bom ver com outros olhos essa escrita urbana...
Beijo.

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