sábado, 15 de março de 2008

OS MITOS NOS DIZEM ONDE ESTAMOS [Heloisa Reis]


"Chapeuzinho Vermelho" é sempre a primeira estória que me vem à lembrança quando penso em estórias infantis. Com certeza foi a que mais significados me sugeriu quando a ouvi pela primeira vez, algumas décadas atrás.

Mas sua idade vai ainda além, no passado...


Os irmãos Grimm, em 1812, escreveram "Rotkäpchen" numa versão própria de um conto oral nascido na região dos Pirineus e do Tirol, e alguns de seus elementos básicos foram encontrados ainda em contos do Japão, Coréia e China.

Em seu trabalho de compilação dos contos infantis ouviram o relato oral da huguenote francesa Jeanette Hassenpflug sobre o conto "Le Chaperon Rouge" - de Charles Perrault, escrito em 1697. Outra de sua fonte foi a peça com o mesmo tema "Leben und Tod des kleinen Rotkäppchens: eine Tragödie", escrita em 1800 pelo escritor romântico alemão Ludwig Tieck, que foi quem introduziu em sua versão o personagem caçador que salva Chapeuzinho e a vovó.

É um conto rico de emoções, suspense e várias possibilidades de final. Até os próprios Grimm oferecem a versão alternativa da reação da vovó que salva-se e à neta, sem a interferência de nenhum homem, introduzindo a idéia da emancipação feminina - aliás presente na versão italiana inicial.

Contudo o que realmente se salva nesse enredo são as muitas particularidades e aspectos humanos que aborda: laços de família, a questão da obediência ou desobediência aos pais, a iniciação à independência, a adolescência feminina, a sexualidade e o estupro, a ordem social contra o heroísmo feminino e masculino, morte e renascimento, e até mesmo canibalismo.

Houve até um movimento nas escolas americanas no sentido de colocar o conto numa espécie de lista negra devido a seu conteúdo de cunho fortemente sexual, embora Grimm tenha diminuído muito essa faceta, mais presente nas versões anteriores.

Agora me vêm à mente algumas perguntas: onde estão as vovós contemporâneas, tão importantes figuras para contar esse conto diretamente nos ouvidos de suas netinhas, fascinando-as com o tom de ameaça das perguntas sobre os olhos, o nariz e a boca... tão grandes?


Onde fica a oportunidade de captar a essência mítica de questões como o que é certo e o que é errado, o que é a preservação da integridade, onde fica a prudência como virtude?


Sim, é preciso contar a estória, manter o mito, pois a natureza humana conserva-se igual à daqueles tempos, até hoje. O lobo exerce ainda seu fascínio e Chapeuzinho mora na alma de toda menininha que sempre teima em querer levar os doces para a vovó - e não pela estrada do rio...

Imagens: Original do livro de Charles Perrault, por Gustave Dore; Little Red Riding Hood, Emma Rian

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2 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Heloisa,
O seu texto me trouxe à lembrança a riqueza do texto do Guimarães Rosa, "Fita Verde no Cabelo" que não deixa de ser uma releitura de Chapeuzinho Vermelho.
A verdade é que nossas crianças, independente da era da informática, ainda necessitam das fantasias dos contos de fadas. Não podemos roubar-lhes isso com nossa cruel realidade e análises textuais cheias de devaneios.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Heloisa, eu que cresci ouvindo histórias de minha avó só posso confirmar a importâncias dessas histórias, que eu grafo com H mesmo. Ter feito uma graduação em História só reforçou em mim a certeza de que as estórias também se escrevem com H. :) E são essas histórias que tenho utilizado na interpretação de mapas astrológicos. Se quiser dar uma olhada no mapa astral da Cinderela, vá até aqui: http://www.constelar.com.br/constelar/116_fevereiro08/casocinderela1.php