sábado, 15 de março de 2008

A SURPRESA DA AMIZADE [Ana Coutinho]


Talvez seja a lei da atração, talvez seja merecimento, talvez seja o acaso ou a sorte mesmo, fato é que a vida sempre foi absolutamente generosa comigo. Todos os dias, por anos a fio, recebo presentes grandiosos da vida. Alegrias furtivas, pessoas excelentes, acontecimentos melhores ainda, trabalho, saúde, família, um amor de verdade, tá tudo aqui, dentro da minha doce rotina... Tempo bom, tempo melhor, outro médio, mas a vida me sorri na maior parte dos dias e eu tento sorrir de volta a ela e aos meus, quase todo o tempo também.

No entanto, de todos esses presentes que recebo, talvez o mais precioso e surpreendente deles, sejam os meus amigos.

A dedicação e a lealdade de uma amizade, seja ela nova ou antiga, me surpreende, incesantemente, todos os dias.

O meu marido me dá amor e carinho incondicinalmente. Dele recebo um tanto de minha força e de minha alegria, mas a ele retribuo com aquilo que tenho de melhor (e, vez ou outra, de pior) mas, embora essa seja uma relação de amor e dedicação, nós nos prometemos isso. Nós precisamos disso, nós combinamos isso, assinamos isso e, portanto, cumprimos, com alegria aquilo que sonhamos juntos para construirmos - também juntos - a vida que queremos para ambos.

Mas os amigos? Eles não. Eles não me prometeram nada, não assinaram nada, não formalizaram nada e sequer houve qualquer tipo de ritual que nos unisse pela vida toda. Eles estão aí, atendendo os meus telefonemas, respondendo meus emails, me oferecendo uma pizza, por nada. Por absolutamente nada. Para que um dia, quem sabe, eu lhes dedique a mesma atenção de volta. Ou talvez não, porque eu posso sumir e nunca lhes retribuir a o carinho e a ajuda que tive e tenho, sempre, de qualquer um de meus amigos.

Ter amigos é uma coisa tão natural que sequer notamos, sequer percebemos ou valorizamos. Mas eu não me acostumo. Não canso de surpreender-me assistindo quando alguém, que a princípio é um estranho, dedica aos meus problemas e aos meus anseios tanto do seu tempo, de sua atenção e carinho, sem nenhuma explicação aparente, que não seja simplesmente amizade.

Amizade... Essa coisa sem muita lógica, que é mais uma nobreza de espírito, um altruísmo, um otimismo, uma esperança no outro, uma fé nas pessoas, uma crença tão rara que me encanta, a cada novo dia. A cada telefonema, a cada e-mail respondido, a cada palavra de apoio...

Gostaria um dia de dizer a eles da minha surpresa e da minha angústia. Sim, porque ter amigos como os que eu tenho também causa uma permanente angústia, soterrada em algum canto de quem sabe que nunca - nunca - conseguirá retribuir-lhes à altura. Vivo, embora grata, com uma permanente sensação de ser ingrata. Uma permanente sensação de falta, como se sempre faltasse algo por fazer ou por dizer, para que eles soubessem, enfim, o quanto os reconheço e os amo, também incondicionalmente.

Por isso, talvez, escrevo esse texto. Por isso, proclamo ao mundo a minha sorte. Talvez por isso me esforce para ser feliz, ainda nos momentos em que a generosidade vacila e, sobretudo por isso, digo obrigada tantas vezes quanto puder, mas sei que ainda não é suficiente.

No final do dia, quando ponho a cabeça no travesseiro, agradeço pela minha vida, pelo meu amor, pela minha família e, acima de tudo, pelas minhas escolhas. Se hoje, beirando os 30 anos questiono o emprego que escolhi ou o tipo de vida que levo, numa coisa acertei - e essa são os meus amigos. Se fossem as minhas escolhas erradas, meu trabalho e minhas maiores dores que tivessem trazido as pessoas que me rodeiam, todas elas, eu viveria uma vez mais para sentir a pequena angústia e a grande alegria que só quem tem verdadeiros amigos pode se dar ao luxo de sentir.

Doce Rotina

Imagens: Friends Lying on Grass, Sam Diephuis; Friends Relaxing at the Beach, Dirk Lidner; Senior Friends, Ted Levine

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5 comentários:

Mariana disse...

E eu me orgulho de estar ao seu redor, e de me lembrar com carinho de um monte de dias....a distãncia que temos hoje é uma grande pena...e era menos angustiante quando planejavamos maquinas do beijo, feito o Mundo de Bobby....beirando os 30, nos vemos menos, mas tenha certeza de que etsou sempre aqui! :) um beijo

Heloisa disse...

Ana,
Só podemos mesmo agradecer até o fazer parte deste espaço onde se revelam as almas com a maior sensibilidade e poesia!
Beijo amigo
Heloisa

Marisa Nascimento disse...

Ana,
Os amigos são os grandes presentes que a vida nos dá. Feliz e sábio quem sabe aceitar, preservar e valorizar essas dádivas por esta e por quantas existências forem necessárias.

Carla Dias disse...

Ana,

Amizade é coisa séria com direito àquelas bobagens que nos fazem cair na gargalhada, não?

Acho que você fez uma bela homenagem a seus amigos aqui.

cacau disse...

Que texto lindo!!! Deu vontade de passar para todos os meus amigos...

Parabéns!!!!

Bjão ;-)