Pular para o conteúdo principal

ESCRAVO DA PAIXÃO >> Sergio Geia




Sorriso de criança feliz que me enfeitiça quando comento coisas tipo você já imaginou o sujeito dormindo em casa e ser morto por uma vaca que cai sobre sua cabeça? E você ri mais ainda quando digo que é verdade, que está em todos os jornais. Mas depois você para um instante, de repente fica séria, talvez refletindo sobre a estúpida morte acidental, me olha fundo, parece querer dizer algo, eu fico imaginando coisas, mil coisas, no fundo, eu imploro que diga, diga algo, eu quero ouvir, mas você não diz. Lentamente, silente, sem desviar os olhos, você se aproxima, me beija, ou se deixa beijar; sorri, se arrepia toda, eu sinto, com um leve mordimento em sua orelha, depois me beija, e aí sim, agora, você me beija, como se fosse o último beijo de sua vida, um beijo de línguas fundidas, de união de desejos, um beijo de coroação, pode ser de coração, vai, por que não?, de vida, de paixão, eu sinto o sabor de nicotina no seu beijo, sinto, agora em mim, os pelos eriçados, uma vontade desesperada e louca. 

Mas você recua e pede mais uísque. Bebe, depois me dá o copo, beba, diz, e sem eu pedir me dá conselhos, me mostra coisas que eu deveria pensar, fazer, depois ri, ri de si mesma, perguntando-se eu, euzinha, dando conselho pra ti?, e se diverte com a situação, com o posto de conselheira ora assumido. Depois fala de sua amiga de Minas, de seus pais em Brazópolis, parece se lembrar de algo, me pergunta se comprei os chocolates que havia prometido, que quer experimentar um, e sorri com o embrulho de presente. Agora é você quem me morde o lóbulo, quem me suga num beijo, quem me mama, quem se insinua até interromper de novo, diz que precisa experimentar a trufa de nozes, eu sinto o jogo, o fogo queimando, a tática para me inocular de tesão, para me deixar revoltado, tremulante, desesperado de ti. 

Não me mande pensar em você, entende?, me atrapalha todo o dia; se bem que ultimamente ando mesmo toda atrapalhada, e eu, de imediato, me entrego ao silogismo barato, à conclusão apressada, sem despender uma miudeza de esforço na tentativa de encontrar a verdade. Que me importa?, penso rápido — um pensamento que passa assim, voando, se não prestar atenção, some —, que me importa saber, que me importa saber se pensa ou se não pensa? A ilusão de seu pensar me sacia, me basta. Ainda que seja apenas uma tola ilusão e a verdade desconhecida pelo meu não-pensar, traço como objeto de descarte, ainda que verdade. Vou de uísque, me deleito com a cena da criança-mulher plena de chocolate, saboreando eu o gosto achocolatado da ilusão. 

Buenos Aires?, pergunto. Tango, vinhos, La Bombonera? Hein? Ou Chile, o Atacama, Lagos Andinos, Viña del Mar? E você diz meio desinteressada, olhando o restinho de uísque no copo: Porto, Coimbra, Lisboa, vinhos, bacalhau; Roma, Nápoles, vinhos, pizzas. Depois apanha a bolsa, dá uma olhada no celular, coloca um baseado na boca, acende. Eu te amo, a voz quase inaudível, com você vou a qualquer lugar. Registro palavra por palavra. Vontade de pedir pra repetir, para que eu grave tudo, e nas noites de solidão, eu possa ouvir. Dou um trago. Você diz, agora sim, amor, adoro fazer sexo assim, fumando, me relaxa. E mergulha sobre mim, sedenta. 

Dessa vez não recua. Penso ligeiramente no seu modo doce, nas artimanhas. Mas nem dá tempo. Entro num estado de desatenção, nada mais de material me pertence, o pensar vira uma tela em branco, estou em outro mundo. Okay. Aceito a escolha compulsória (by Fred Fogaça) de ausência de liberdade por ti. Algeme-me, assim, isso. Sou seu escravo, digo, escravo da paixão, penso. Sou todo seu, já sentindo unhas afiadas como garras, penetrando fundo na minha carne.

Comentários

Zoraya Cesar disse…
Uau. Uma crônica totalmente diferente de seu estilo. Mas totalmente igual no talento. Vc deve ter vivido essa história, não é possível! Resumindo: uau.
sergio geia disse…
Querida Zoraya, sim, desta vez um conto. Fico contente que tenha gostado, afinal, conto é a sua especialidade. Bjs!
Brasilino disse…
Sérgio confesso que de início estranhei, pois seu estilo, como disse sua leitora, é outro, mas este ficou muito envolvente, como sempre.
sergio geia disse…
Brasilino, essa questão de estilo é curiosa e quem sabe merece uma reflexão. Normalmente escrevo crônicas. E a crônica, como um gênero literário, tem suas características, que são bem diferentes do conto. Na crônica, não há muito campo para a ficção; normalmente ela narra um fato do cotidiano, às vezes até alimentamos esse fato com um pouco de ficção, mas de uma forma bem limitada; as minhas normalmente são 100% reais, ou algumas, com poucos elementos ficcionais. No conto, não. Eu tenho um campo aberto para criar, para trabalhar a linguagem, para viajar. Acho que a maioria conhece o Sergio cronista; me apresentei agora como contista.