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O DIA EM QUE ELE ASSISTIU AO TERROR >> Carla Dias >>


Estarreceu-se diante do feito. 

Parou ali, sentindo um misto de medo lancinante e curiosidade acirrada. Observou a tragédia com o olhar se distraindo com as poças de sangue. 

Não se lembra de ter visto tanta carne fora do corpo de uma pessoa. Tanto vermelho-morno pavimentando a rua. 

Não se lembra de se sentir tão vazio diante de uma tragédia. 

Aceita que nunca vivera ou mesmo testemunhara uma de tal calibre, de desfigurar tantos, aniquilar outros. Entretanto, não consegue se desviar da cena. Não sabe parar essa espera pelo o quê? 

Engole, na conta do repúdio, o que há pouco o agoniava: a comida ruim do restaurante, o pedinte enfeando a paisagem, a cor dos ônibus, o atraso do filho para o compromisso, a abotoadura perdida. 

A paisagem que observa é vigorosamente violenta. 

Nela tudo se escancara, perde a identidade, mistura-se com coisas. 

No chão, a criança atravessada pela placa que indica: rua sem saída.

E ele assim, sem direção para seguir ou certeza para guiá-lo. 


Imagem: Le désespéré © Eugène Laermans 

carladias.com
talhe.blogspot.com

Comentários

Zoraya Cesar disse…
Carla, sensacional. Com poucas, pouquíssimas palavras, vc descreveu com intensidade um momento único. Diante do terror, todo o resto munda de perspectiva e ganha importâncias e 'desimportâncias' novas. Maravilhoso.