quarta-feira, 30 de março de 2011

SAUDADE & VOZES >> Carla Dias >>

Às vezes, me dá uma pane danada olhar o mundo tão de perto. Folhear jornais ou apreciá-los na tela do computador, da televisão. Consultar formulários, desenvolver projetos, criar rotas de fuga, alinhar a diplomacia com a loucura do diariamente.

Outro dia, senti saudade da caminhada do ponto de ônibus até a biblioteca, e do cheiro dos livros, das mesas onde os colocava e folheava por horas, antes de decidir quais cinco eu levaria para casa, para passar uma semana comigo. Senti saudade da sensação notória de que minha vida seria completamente diferente, depois de ler aquelas histórias.

Sentir saudade faz parte da vida, eu sei, mesmo que seja saudade de si mesmo, de quem foi há cinco dias, sete horas, dois segundos, até de quem será. E sentir falta de quem será me lembra desistir do desejo, antes que ele nos soque no estômago, e se torne completamente inesquecível.

Eu sou boa com vozes, reconhecendo-as com mais facilidade do que a fisionomia. Nos meus pensamentos, ainda moram as vozes de muitas pessoas que já se foram daqui para outros lugares do planeta, ou daqui para outra dimensão. Porém, esta é apenas uma maneira de carregar outras pessoas conosco.

O dia em que me dei conta de que as pessoas moram na gente, senti-me intrigada demais. É a gente que abre a porta? Ou elas escancaram com qualquer tentativa de privacidade existencial? O que sei é que, vez e outra, essa casa que é meu dentro se enche de pessoas e suas vozes peculiares. E que, quando leio minhas próprias palavras, em silêncio, a voz que escuto na minha cabeça não é a minha.

Minha voz é a uma das que não consigo identificar e reproduzir em pensamento. Será que sou tão sem intimidade comigo mesma?

Andava com saudade de algumas vozes, elas que deram de me atulhar os pensamentos, em horário comercial, desviando minha atenção dos relatórios, orçamentos, fichas cadastrais. Minha sobrinha contando histórias, minha avó materna insistindo que escreveria para a Porta da Esperança para pedir uma bateria para mim, e eu horrorizada com isso. A amiga contando a trama do seu próximo romance, meu avô paterno falando sobre a saudade que sentia da minha avó. Minha mãe dizendo ‘bom dia’ ao chegar em casa do trabalho. O amigo desfiando o desejo de ser pai, contando sobre sua filha, isso antes de ela chegar ao mundo. Meu irmão contando sobre a sua primeira aula de violão, o moço dizendo coisas no meu ouvido, a amiga doendo o fim de um relacionamento, o sobrinho, menino de tudo, chamando a mim de amore mio.

A impressão que tenho é que o dentro da gente é uma ampla sala de estar. E nela entram todos os que amamos, e lá eles vivem, e suas vozes entrelaçadas entoam essa canção que carregamos vida afora, a canção dos nossos afetos.

Imagem: Joan Miró

carladias.com

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10 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Você mora em mim, Carla. :)

Carla Dias disse...

Eduardo... E o milagre de se morar em outra pessoa é que ela pode morar na gente também. Você mora em mim, Eduardo.

Daniel disse...

A canção dos nossos afetos. Que maneira inteligente de expressar as vozes menina! é sempre uma delícia vir aqui e conseguir enxergar o seu todo existencial. Eu também sinto saudades de algumas vozes, principalmente a de minha avó. E eu sinto, que ela nunca sumirá de dentro de mim, porque acho que até hoje, depois de minha mãe, foi o ser que mais amei. Grande post!

Dan

Fernanda disse...

E é lindo saber que temos as vozes e que não a perderemos por aí, como muitas vezes 'perdemos' as pessoas.
Adorei seu texto :)

fernanda disse...

Assim como você também trago muitas vozes comigo. Já fisionomias, quase nenhuma. E tb não consigo me lembrar da minha própria voz, isso sempre me intrigou. Mas agora você levantou uma questão a ser pensada: seria falta de intimidade comigo mesma?

Ótimo texto!

Louro Neves disse...

O ser humano é isso mesmo, Carla.
Começa senda uma casinha linda, cheia de vozes lindas e lindos amores; mas passam os anos, vão-se os amores, vão-se muitas alegiras e acabamos um ser fantasma: apenas saudades e vozes roucas.

Marisa Nascimento disse...

Ah, Carla! Você despertou vozes adormecidas em mim...
Sempre tão doce te ler!
Beijos

Carla Dias disse...

Dan... Obrigada pelo comentário gentil. Colocar canção e afeto na mesma frase é algo que adoro fazer, confesso. Essas pessoas fantásticas que passam pela nossa vida, não? Que bom que também você conserva no seu dentro o timbre da existência delas, e permite que suas vozes ecoem.

Fernanda... É verdade... Podemos perder as pessoas, mas as suas vozes, a gente pode manter dentro da gente. Que poder temos de apreciar e viver os afetos, não?

Fernanda Pinho... Pois é, sou muito ruim de guardar fisionomias. E sabe que adoro quando acontece de eu rever alguém, reconhecer a voz e ter a impressão de estar conhecendo a pessoa novamente? Esse negócio de não lembrar da própria voz é meio insano, mas talvez sim, talvez seja falta de intimidade com a gente mesmo.

Louro... Acho que eu vejo essa habitação de vozes em mim com mais apreço do que medo. Não acho que são fantasmas, mas sim a continuação daqueles que, seja por uma hora, um dia, seja pelo restinho da minha vida terrena, não poderei ouvir.

Marisa... Às vezes, temos de acordar as vozes adormecidas, dar-lhes de comer e beber, alimentá-las de histórias, antes que elas voltem a fechar os olhos. Sempre doce tê-la como leitora. Beijos!

albir disse...

É isso aí, Carla. É o que torna as pessoas mais presentes pra nós: a voz. Mais nítido que a imagem. Parabéns por mais um texto exige releitura, apesar de cristalino.

Carla Dias disse...

Albir... Obrigada. Você é sempre gentil.