segunda-feira, 7 de março de 2011

BOMBAS E BATUQUES
>> Albir José Inácio da Silva

Colado na parede, ao lado da bancada, está um mapa-múndi que olho pra matar o tempo. Ele ainda mostra União Soviética e outras configurações do passado. É uma página arrancada do atlas da infância só pra lembrar que gosto de geografia.

Recordo o telejornal na hora do almoço: Kadafi, bombardeios, civis, mulheres e crianças. O relógio na parede não anda, mas não está quebrado, é só ansiedade.

A sexta-feira começou arrastada. Acordei uma hora antes e não consegui mais dormir. Tive de esperar o café ficar pronto na padaria, o ônibus demorou pra passar e demorou no trânsito. A manhã durou vinte e quatro horas e a tarde parece que não vai acabar. E o que é pior: um dia assim comprido não rendeu a cota de hoje. Fico devendo muitas peças pra semana que vem, o que o feitor parece adivinhar pela maneira como me olha. Mas agora todo mundo já está parado, e o silêncio incomoda mais que o barulho das máquinas. Puxo conversa pra espantar o nervoso:

- Você viu o que está acontecendo na Líbia?

- É, mermão, tá esquisito! Chocante!

Chocante. Esse aí não dá a mínima. Só se cair uma bomba na casa dele. Na hora do jornal deve mudar pra outra novela. Um magrinho fala de futebol e eu ignoro. Cambada de alienados! Ainda vem falar desse timinho às vésperas do rebaixamento. Ele se ofende:

- Pô, cara, só tô conversando. Tu anda mal, hein?

O tempo não passa. Viro pra trás, a Solange está séria, a mãe dela doente há meses, nem sabe se escapa. Sinto pena e digo alguma coisa.

- Eu não vou viajar no carnaval; se precisar de alguma coisa, é só me ligar.

Ela agradece com um sorriso triste, e eu não insisto.

Vou ao banheiro de novo, só pra fazer alguma coisa. Lá fora mais um bloco, batuques, marchinhas. Alguns vão à janela, e outros marcam o compasso com os pés, mexem os braços e a cabeça. O chefe olha significando que ainda estão no trabalho. Por que não libera? O que são alguns minutinhos? Olha a cara dele, está saboreando a angústia geral. Cara de torturador. Lembro de Kadafi mais uma vez. O telefone toca e todos se assustam.

O relógio já passa das cinco, isso é roubo, alguém devia... A fábrica apita. A campainha machuca demoradamente os tímpanos, e adoça o coração. Antes que se cale, eu já estou na porta. Ainda vejo um rabo de bloco e é pra lá que eu corro. Tiro da bolsa um apito e um pano cáqui, que envolvo na cabeça e no pescoço. Um Kadafi sorridente corre, e tropeça, e apita: é carnaval.

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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

É, Albir, tudo acaba em samba. Você escreve como ninguém quando faz o papel de outra pessoa.

albir disse...

Obrigado, Edu,
oh, skindô, skindô...