quarta-feira, 9 de março de 2011

IDENTIDADES >> Carla Dias >>

Ele estranha a cadência do tempo como o faz a maioria de nós, os outros, aqueles que observam, enquanto o feito é feito. Nasceu do estranhamento de ditos pais que o deram de presente ao sistema logo nos primeiros anos de sua vida. Lembra-se da infância com o esquecimento necessário para não doer gravemente o abandono.

Por isso deu de inventar naturalização, chegando até a ser inglês, africano e alemão em um mesmo dia. Aprendeu tudo que sabe ao se portar como turista em seu próprio país. Mas se a inteligência lhe é aguçada, a percepção sobre a própria identidade deixa a desejar.

Às vezes, olha-se no espelho e murmura um nome que não é o seu dos documentos, mas um dos adotados. Ao se deparar com as vizinhas faladeiras, acaba sempre deixando as carolas em dúvida sobre a sua origem, mixando o espanhol com o inglês e o português, criando um dialeto que as pobres jamais entenderão.

Trabalha como arquivista, bartender e segurança de teatro. Consegue desempenhar tais papéis sem deixar que um atrapalhe, ou mesmo se sobreponha, ao outro. Veste-se esporte-chique para arquivar documentos, abusa dos coletes e arrepia os cabelos para atender aos seus bêbados mais queridos, e usa terno e gravata na entrada do teatro para receber as madamas e seus acompanhantes do dia.

Hoje ele é o filósofo que perdeu o olhar no horizonte de Madagascar, mas ainda ontem era o eletricista, e aproveitou o papel para fazer um agrado ao síndico e consertar uma fiação que dava problemas no hall de entrada de seu prédio. O filósofo sorriu ao eletricista, enquanto pensava como é complexo o músico, aquele que adora sucumbir à melancolia e escrever letras de música nas paredes do apartamento.

Houve o dia em que ele acordou sem saber quem era. Passou horas sentado à janela, olhando para lugar nenhum, procurando nenhuma resposta. Sentia-se tão vazio que qualquer outro poderia se apossar dele, naquele instante, e moldá-lo ao bel-prazer. Mais tarde, encontrou-se consigo mesmo, à beira de um desejo esbaforido, e tornou-se o guardador dos seus sentidos. Encheu os pulmões de ar e as páginas do caderno de histórias, como fossem um roteiro a ser interpretado com a intimidade de quem dele se apropria.

Amanhã, ele será sabe lá quem, e mesmo ao bater o cartão na repartição pública pelo vigésimo ano seguido, permitirá que a imaginação lhe roube a identidade e o leve para longe dele mesmo, aonde a geografia é apenas uma das portas a se atravessar.


Imagem © Jim - www.unprofound.com


carladias.com


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5 comentários:

Lins Roballo disse...

lindo texto... falar de identidade é uma coisa muito importante em um mundo onde não se tem mais isso.

Carla Dias disse...

Lins... Identidade é das poucas coisas que não podem ser tiradas da gente, não é? Tão bom quando ela continua original. Mas acho que há muita gente que não a perdeu... O mundo pode ignorá-los, mas necessitamos dessa originalidade. Acho que isso não vai se perder, não.
Beijo!

albir disse...

Carla,
Personagem fascinante, que consegue ser a um tempo comum e especial.

morgana pimentel disse...

Carla, parabens pelo texto, a identidade é algo que me fascina, uma pessoa pode ter várias identidades,mas só se é uma pessoa verdadeiramente.
Lindo texto.

Carla Dias disse...

Albir... Que os personagens tenham sempre essa liberdade ser a pessoa da gente.
Morgana... Obrigada por ler o texto. E sim, a identidade é fascinante, principalmente porque raramente está à vista. É preciso querer alcançá-la.