segunda-feira, 28 de março de 2011

O PULO >> Kika Coutinho

Eu estava sentada na minha mesa de trabalho, o ambiente era frio e silencioso. Diante de mim, uma planilha do Excel, lotada de números e fórmulas. Eu estava tão concentrada, tão imersa nessa placa de gelo que é uma planilha no Excel, que nada teria me tirado do transe, nada, exceto o que se deu na sequência.

Entre uma fórmula e outra, bem quando eu tentava achar um cálculo, num instante, senti um tremor dentro de mim. Um micro, mini tremor que vinha do meu ventre, logo abaixo da minha barriga, que começava a apontar nos meus quatro meses de gestação. “Uhh!”, falei num misto de suspiro e susto, pondo a mão na barriga. “O que foi?”, perguntou a colega do lado, virando-se para mim. “Mexeu.”

Um silêncio ecoou no espaço. Eu repeti, sorrindo numa emoção quente: “Meu neném mexeu!”.

“Ahhh, que legal!”, ela se aproximou de mim, também pondo a mão em meu ventre: “Deixa eu sentir?”

E ele mexeu de novo. Num segundo, senti meus olhos ficando quentes, as lágrimas brotando, volumosas. “Ai, desculpe”, eu dizia sem graça, num misto de culpa e orgulho, “é que foi a primeira vez... tão emocionante”. Alguém me trouxe um lencinho, outra perguntou de longe, outro que esticava o pescoço lá na frente:

— O que foi? o que houve?

— O neném dela mexeu! — explicavam, compartilhando gentilmente minha emoção.

Alguém ria, alguém comentava, alguns cochichavam enquanto eu me levantei, assoando o nariz, e proclamei com a força e a coragem das grávidas:

— Gente, tô grávida, tô explodindo de hormônios e meu neném mexeu, deixa eu chorar, pô!

E um gritou que podia, sim, chorar, outro sorriu e alguém aplaudiu, incentivando a emoção naquele ambiente gélido.

Logo um grupinho se mobilizava e falava do milagre, do pequeno milagre cotidiano de um neném crescer e pular na barriga de sua mãe.

E foi assim, numa tarde gelada de março, que Deus achou mais um jeito de mostrar que, em meio a planilhas e burocracia, ali mesmo, numa competitiva máquina de fazer dinheiro, Ele pode brotar um enorme milagre, tão enorme e tão cotidiano que nos desconcentra a todos, nos encanta, nos move e faz a vida girar e continuar, há milhares e milhares de anos.

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3 comentários:

fernanda disse...

Pode chorar também? ;)

Raphael disse...

É impossível ler isso e não se emocionar, em espeial quando já vivemos esta experiência única que é a maternidade.
Parabéns Kika, encontre mais tempo para nos brindar com estes lindos textos...

urbe_oriundo disse...

Por alguns minutos fiquei parado, sem conseguir escrever, foi que percebi que pingou lágrimas no teclado. O milagre da vida.
Kika, é lindo o que tu escreve.