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MINHA QUERIDA NOITE COM CÓLICA MENSTRUAL >> Leonardo Marona

Ia começar dizendo que sou um perfeito pessimista católico: um tipo que diz não rezando pelo sim. Mas hoje não (mais uma demonstração) que a noite é fresca, o peito é quente e não tem lua no céu. Algo que não sei de onde vem nem pra onde vai fica bem aqui, como se esse algo bem aqui não soubesse também ficar parado sem avisar. Então somos dois certos sem saber, dentro de um apenas duvidoso sem errar. Dou um pulo até a janela. Finjo que acendo um cigarro – mas nem tenho um cigarro – para poder enrugar a testa em vez de pensar. Não agüento teus urros noturnos de cólica, a pressão que você faz com o travesseiro sobre o ventre, teu formato feto felino enquanto dorme tranqüilamente, dentes rangendo mordidos, teu beijo de porra depois que eu desperdiço mais uma boa intenção na tua boca, não agüento isso tudo deitado ao teu lado. Tenho que levantar atrás de ar e não há. Mas você fala comigo com tanto carinho e tão pouco jeito – porque não somos dados a jeitos – e eu leio a história dos sapatinhos vermelhos pra você dormir mas no fim a noite é quem dorme e você acorda e baixa a cabeça pra falar da morte e eu te digo: “levanta a cabeça que a morte se encara nos olhos!”. Mas é demais pra ti também, então primeiro somos dois sonâmbulos calados dentro de uma garrafa bronzeada metade vazia não querendo machucar um ao outro mas sabendo que viver um ao outro machuca sem querer. Você pergunta “o que há”, eu digo “é um troço... eu sei lá”, então roçamos pernas por debaixo da mesa e quando dou por mim, aquele algo que não sei de onde vem nem pra onde vai resvala na tua calça de brim e estamos juntos por minutos que parecem semanas e posso sentir o fim porque me deram o começo e isso é tudo que um dia eu pedi a deus se algum dia ele estivesse na janela ao meu lado e me oferecesse um cigarro – eu que não fumo – daí seríamos meus dois defuntos: eu e esse algo que não sei de onde vem nem pra onde vai, mais o Um Universal que inicia as coisas pra depois sumir sem dar nomes a elas. E teus gritos de cólica ao meu lado me dão um futuro sem passado onde me vejo, cabelos brancos, poucos, pernas tomadas pelo roxo do tempo mal-gasto, espalhado numa cadeira de balanço, e você colhendo nabos frescos com seu metro e meio e sua cinturinha reta, com um vestido de flores do campo que te confundem com um ramo de avencas que lemos juntos numa história linda que falava de amor e não dizia mais do quê. Então no meu sonho não somos você e eu e sim eu e um campo vestido florido de algodão que posso dizer que amo, com bochechas vermelhas de sol moribundo, mão na anca outra na terra, uma larga aba de palha desperta, sorrindo com dentes levemente separados só pra mim e pros nabos. É quando dou por mim sem nabo nem nada, peito quente, têmporas doentes, cheio de presentes indicativos e pontos de interrogação invertidos em anzóis para fisgar tuas certezas e as estrelas, mas elas nos deixaram a sós com anzóis sem nós e foram visitar outros sóis. No apartamento da frente uma mulher conta os terços do seu rosário no escuro enrolada numa velha fatiota manchada de sangue cheia de medalhas e condecorações e uma linha vai de mim até ela, passando por cima da baía espelho do céu na terra, porque os dois ainda são capazes de chorar sem som e sonhar sem sono numa noite de estrelas sem lua nem barulho fora o pulsar surdo dos corações sozinhos e dos teus gemidos, e eu digo que se doer muito você morde a fronha que já passa e fico no teu ouvido tentando fazer passar com um zumbido de queda d’água, até que você dorme e desaparece no meio dos lençóis e eu nunca mais dormi porque até hoje estou atrás de ti e de nós.


www.omarona.blogspot.com

Comentários

Louro Neves disse…
Não tenho filhos e muito menos netos deixando rastros aqui por casa. Minhas saudades vêm quando vejo os rastros que eu mesmo deixei a machadadas nas árvores da vizinhança. A vitalidade das árvores e a passagem do tempo cuidaram de reformá-las, mas continuam lá; sinalizam que um dia fui criança e que vivia nem um pouco à moda "greenpeace".

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