sexta-feira, 11 de março de 2011

FÁBULA DA DECAPITAÇÃO VOLUNTÁRIA
>> Leonardo Marona

A quarta-feira de cinzas é uma segunda-feira proveitosa. Desviando do cheiro atraente de suor, urina e sexo do último aglomerado hedonista na praça pública, sigo metido apenas comigo mesmo, a caminho do trabalho. Sinto um misto de vergonha e pressa, aquele não é o meu lugar. E não digo aquela praça, aquele bairro, aquele distrito, aquele país, me refiro ao aquele que posso apontar, seja qual for, o que está fora de mim e nunca dentro de mim, esse eu chamo de "aquele não é o meu lugar", não uma questão especificamente objetivada, a preocupação com "aquele que não é", é muito mais uma questão de eu "nunca ser" algo situado dentro do que se aponta.

Não que me doa além da conta, ou especialmente agora, não confio mais nas pernas da tragédia. Quase mudo de caminho quando vejo uma bela e magra moça loira, com pernas de um metro e meio e, apesar de linda, tão deslocada quanto eu, ainda que inserida. Quanto senso comum, quanta mesmice essa ideia de "o amor vem de onde menos se espera", ou "homem fracassado retoma o brilho da vida ao passar por bela e provocativa mulher". Talvez seja algo parecido, mas não é bem isso. Aquela mulher seria tudo o que qualquer homem poderia colocar — e colocou — em um milhão de versos, ruins e péssimos, mas nunca bons, nunca tão bons quanto é "aquilo que podemos apontar pessoalmente", nunca tão bons quanto aquela moça loira e magra e alta, que é apenas a minha moça loira e magra e alta e nunca a de outra pessoa, porque mesmo falar dela cai na linha dos milhões que apontaram, mas apenas apontar e passar cai dentro de cada um, e foi o que fiz, agora com mais vergonha do que pressa, mas sem mais conseguir dar pontos às frases, enfim pensando os mil nomes para os mil filhos das infinitas possibilidades de apontar e passar, sem reter, ou reter-se em nada que esteja fora, e ao mesmo tempo retendo tudo o que está fora como possibilidade de calo silencioso, porque se o calo é uma deformação da pele, ao menos ainda é pele; e diriam, talvez, à moça loira: "Não ligue, não fique triste, é maldição ser assim tão bela, a pessoa deve pagar por isso um preço alto, esqueça os triunfos, é importante equilibrar o planeta, esqueça a felicidade, isso é para os derrotados, há pessoas feias que precisam muito mais da felicidade, contente-se", e o que poderia dizer para mim?, penso enquanto quase sou atropelado por um daqueles carros que fazem safáris com estrangeiros rosados e felizes nas favelas menos perigosas ("vá se tratar e não me encha!", é o que imagino que diriam, mas, de repente, enquanto tento recolher do chão os pontos das frases, finalmente consigo, recobro o discernimento e atravesso a rua).

Encaminho-me ao ponto de ônibus, junto a um doentio rebanho, do qual me compadeço e no qual me incluo pela primeira vez, como um cristo que peca inevitavelmente ao se reconhecer em cristo, sinto uma primeira e até, eu diria, precoce noção de postura, que me trespassa o corpo todo. Ao meu lado, pessoas eficazes e, mesmo assim, infelizes em sua eficácia, porque não gozam dela, ela os oprime e tranquiliza, como um barbitúrico, e lá estou eu, muito provavelmente com um trabalho infinitamente menos importante que o deles, mas também como eles infeliz na minha eficácia, infeliz mas tranquilo, apaziguado como um dragão num elevador para duas pessoas, eu ali entre eles, eu o que aponta, finalmente no lugar para onde se aponta, junto à loirinha magra e alta e bela e deslocada e aos empresários de marfim, e talvez por isso, por, pela primeira vez, ser o que se aponta com malícia e até mesmo raiva, me enchem as omoplatas com um determinado, não chamarei de orgulho cidadão, ainda não chego a tanto, mas uma carnalidade do desespero, e me sinto como um general do senso comum, o pico do abaixo da linha do mar, a balança do sem peso. Estamos indo ao trabalho, seremos abatidos de banho tomado e até quem sabe um talco em nossas dobras mais delicadas e, de qualquer forma, não festejaremos a nossa própria decapitação: aceitaremos o destino com um sorriso no rosto, o sangue não estará mais entre os dentes: precisamos da delicadeza e até mesmo da falsa compaixão como viciados que reviram os olhos. Não se iludam com a nossa firme indiferença. Estamos sólidos, com mochilas nas costas, pastas nas mãos, desviamos sem fôlego da euforia popular, mas até os nossos penteados são facilmente classificáveis, nossa vida é de um vidro grosso, translúcido, mas ele rachou há muito tempo, e ainda temos tempo demais.


www.omarona.blogspot.com


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