domingo, 8 de junho de 2014

O OUTRO ESCRITOR >> Eduardo Loureiro Jr.

É outro que escreve. Quanto melhor é aquilo que penso que escrevo, mais eu sei que é outro aquele que escreve.

Eu, que até agora pensava que escrevia, sou apenas a caneta, o computador, o instrumento com o qual esse outro busca escrever.

Ele tem suas ideias, ele tem sua inspiração, e nem sempre consegue fazer, por meu intermédio, o texto que imaginou. E isso não se deve a uma limitação dele, mas minha. Pois não sou um instrumento mecânico, mas um instrumento vivo. Um instrumento com vontade, principalmente a vontade de não ser um mero instrumento mas de ser o próprio escritor. Uma caneta, ou um computador, que quer escrever sozinho. Uma inteligência artificial que quer se mostrar real. Uma tentativa de inversão: o instrumento querendo usar o escritor para produzir um texto. Assim saem os piores escritos, como talvez seja este. Na melhor das hipóteses, uma confissão sincera, uma admissão do crime.

Enquanto escrevo isto, o outro não escreve o que deveria escrever. Você, leitor, fica privado do belo texto que o outro escreveria se eu não estivesse aqui atrapalhando o processo com ares supostamente nobres de metalinguagem. A consciência disso, entretanto, não me faz abdicar do domínio, da primazia sobre as pontas dos dedos. Mesmo me sabendo instrumento, continuo teclando em causa própria, sem abrir espaço para o outro.

Não quero o texto belo do outro porque você, leitor, há de dizer “que belo texto, Eduardo, parabéns”, e eu saberei que os parabéns não são para mim, são para o outro. Quem elogiaria o instrumento com o qual foi feita uma obra-prima? Quem louva os pincéis de Matisse, a pena de Shakespeare, o cinzel de Rodin, a máquina de escrever de Fernando Pessoa? O destino de um instrumento é se gastar e se tornar obsoleto, sendo substituído por outro mais novo e mais eficiente.

Não, não sou eu que escrevo, mas estou apegado a esta ilusão de escrever. Não, não sou eu que escrevo, mas persisto na loucura de assinar o texto e publicá-lo. Não, não sou eu que escrevo, apenas faço de conta que sou para que o leitor pense que sou.

Mas agora está tudo revelado: eu não sou o escritor. O leitor, de agora em diante, sabe a verdade. E a única maneira que tem de continuar me chamando de escritor é, também, se iludindo e fazendo de conta.

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7 comentários:

Ana Campanha disse...

Eu sempre digo que começo escrevendo um texto com uma determinada ideia em mente, mas o texto vai se modificando e virando algo totalmente inesperado...Vai ver é o verdadeiro autor que achou que minha ideia inicial era ruinzinha!! =)

Zoraya disse...

Se você não é o escritor, então, eu também não sou o leitor. Fica no ar uma questão, quem, afinal, somos nós? beleza de texto,hein (o seu, claro)

André Luiz Ferrer Domenciano disse...

Texto instigante mesmo que não se pense em esoterismo. Alguém (Piaget?!) nos explicou que somos feitos da soma de muitos "eus" exitosos e fracassados. Cada texto pode ser escrito por um deles, mas nunca livre da interferência dos demais. Óbvio é pensar em Kardec.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato, gente, por reverberar essa questão existencial... :)

Lilu disse...

Ele sai da bipolaridade, entra na esquizofrenia, vira o mar onde navega pelas perigosas fronteiras da alma... E eu, que nem sei quem sou, continuo instigada pela parcela que me cabe observar, absorver, inebriar.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Que mar a vida, Lilu!

albir disse...

Não se preocupe,Edu. A mim deleita iludir-me e fazer de conta.