quarta-feira, 25 de junho de 2014

ACHO POSSÍVEL.... >> Carla Dias >>


Será que sou eu?

Pode ser... Mau hábito, condicionamento, essas coisas. Não foi tevê que me fez assim, nem mesmo leitura de revistas de consultório médico. Não foram aqueles shows do Eli Correa que assisti, quando era criança. Sério... Assisti a Gretchen e os Tremendos no mesmo dia. Não me lembro de ter gostado dos shows, mas da diversão de estar lá naquele parque com minha irmã e primas, ah, dessa eu me lembro.

Habitualmente, as pessoas dizem que eu não sei sobre o que falo. Em muitos aspectos, eu não sei mesmo, porque não vivi as vidas das outras pessoas. Porém, há muito sobre o que sei, meus caros, do que fiquei sabendo logo cedo, por conta da experimentação e da educação que recebi daquelas pessoas que, por sorte, importavam-se comigo.

Garanto a vocês que não tem nada a ver com assistir novelas. Novelas fazem parte da minha vida desde pequenininha, que fui companheira noveleira de minha avó. Ou de ter escutado Waldick Soriano em algum momento da minha vida. Garanto, não tem nadica de nada a ver com o negócio.

Cheguei à conclusão de que tem a ver somente com o que realmente sei. Desde sempre, respeito o fato de que eu posso estar errada sobre algo, por não conhecer esse algo muito bem, ou esse alguém. Minha verdade não é absoluta, já disse aqui que sou avessa ao absolutismo.

Por isso, reforço o que penso, sem peso na consciência, e se alguém puder mudar o rumo dessa prosa — e há quem venha se dedicando a conseguir isso —, tudo certo. Só que, nesse momento, eu continuo a acreditar que precisamos celebrar o que é bom, mesmo com a quantidade de absurdezas que somos obrigados a engolir, diariamente. Porque não há somente criminosos no nosso bairro. Eu conheço um monte de gente boa no meu. E no seu, aposto que eles também são maioria. Nem todo canto é habitado por políticos corruptos, por celebridades mequetrefes, por traficantes donos de creche. A mania de resumir a nossa existência ao que nos afronta por pura canalhice ainda vai nos levar a acreditar na grande mentira de que o ser humano não tem mais jeito.

Olha que tem...

Com essa generalização, eu teria de descartar uma série de histórias de pessoas que conheci e fizeram muito bem ao mundo. Teria de deixar de celebrar a existência de quem realmente se dedica a colaborar com o outro, sem enfiar a mão no bolso dele ou ter um motivo de cunho pessoal para fazê-lo. Não estou dizendo que devemos nos contentar com o abuso social, político e financeiro, com o preconceito, com a imbecilidade. Não é para nos esquecermos do que precisa de conserto, mas para não lidarmos com ele como se, aproveitando o momento Copa do Mundo, entrássemos em campo sabendo que perdemos o jogo.

Admito que não gosto de ser chamada, nessa generalização, como integrante de certo grupo, qualquer que seja, de idiota. Idiotice é pensar que jamais cometeremos erros. Então, se você vota naquele político que entende nada de política, somente para desacreditar aquele outro, do partido que não lhe representa; se fala mal de projetos sociais e culturais, como se soubesse como eles funcionam e a quem eles beneficiam; se chama de burro aquele que não tem a mesma opinião que a sua; se acha que é tratado com desrespeito pelo mundo, enquanto estaciona em vagas para deficientes físicos, apesar de não ter qualquer deficiência física, ou leva para casa aqueles itens de escritório, que não são seus — mas ninguém vai usar mesmo! —, bom, sinto lhe dizer que, de uma maneira nada poética, o problema que você detecta e lhe assombra, que faz com que você saia distribuindo ofensas por aí e que tanto lhe aflige, talvez seja você mesmo.

Precisamos aceitar que há situações ruins, pessoas ruins, decisões ruins, assim como há situações que inspiram o ponto de virada necessário, pessoas que têm desprendimento para ajudar e respeito para aceitar a opinião do outro, decisões que podem causar resultados diferentes, mas ainda assim importantes.

Não é a televisão, é a educação, e não somente a formal. Vocês que são pais, que têm qualquer tipo de ligação com uma criança, também são educadores, que essas crianças se espelham em vocês, palavras e feitos. E se querem um mundo melhor, um país mais justo, pensem que essa justiça não é somente inerente ao que lhe afeta. O Brasil tem quase duzentos milhões de habitantes. Sua opinião deve ser respeitada, assim como a dos outros brasileiros.

Confesso que gostaria que as pessoas espalhassem matérias sobre projetos que deram e continuam a dar certo, assim como ações de indivíduos que beneficiam a muitos, com o mesmo ardor com que bradam o “não tem mais jeito”.

Já pensou nas mudanças possíveis se pensássemos nos problemas em busca de soluções em vez de o definirmos insolúvel?

Desculpe, mas não é por causa das novelas, da televisão, da leitura barata, da condição econômica, dos reality shows, do partido que não tenho, do time de futebol, do filme gringo, do gringo. É por mim mesma, minha cabeça e meu coração, como deveria ser por você mesmo, sua cabeça e seu coração. O que não tem jeito, meu caro, é enxergar uma realização positiva enquanto se usa a venda da intolerância.

Imagem © Mônica Côrtes


carladias.com

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3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, de todos os seus lindos personagens, o "personagem" que eu prefiro é você mesma. :)

Cristiana Moura disse...

ADOREI!

Carla Dias disse...

Eduardo... Nossa, emocionei...

Cristiana... Que bom :)