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O AMANTE >> Albir José Inácio da Silva

Só mesmo a culpa para explicar tamanho desassossego. Ainda faltavam alguns minutos e ele poderia se atrasar como todo mundo. Era um restaurante afastado, que ela mesma sugerira, e as chances de serem encontrados ali eram infinitamente pequenas. Não havia motivo para preocupações.

Por outro lado, eram injustificados os escrúpulos dela. Sabia das escapadelas do marido. Tudo apontava para anos de traições: ausências, desculpas, viagens, atrasos e madrugadas. Manchas no colarinho e perfumes alienígenas capazes de condenar um padre franciscano. Além disso, muitas das suas amigas tinham seus casos e ninguém morria por isso.

Esses pensamentos, entretanto, não conseguiam tranquilizá-la. Um suor gelado lhe escorria pelas costelas como dedos numa harpa. Não conseguia ficar quieta na cadeira.

O outro aparecera inesperadamente. Da primeira vez olhou. Da segunda, sorriu. Da terceira vez ele trouxe uma pétala amassada na mão e seguiram-se outras suavidades que a deslumbraram. Troca de telefones, longas conversas pelo celular e chegaram àquele encontro.

Acertava o batom já pela terceira vez quando ouviu seu nome numa voz rouca. Não precisou olhar, e não quis, para saber que era seu marido. Ouviu misturadas algumas frases: o que você tá fazendo aqui? Tá esperando quem? Então era verdade o que me contaram? O que você tem a dizer?

Ainda não tinha recuperado o fôlego, quando reconheceu o carro que parou junto à calçada. Um sádico diria que faltava a trilha sonora. Mas um cliente, do outro lado do salão, empurrou uma ficha numa Jukebox e Maysa atacou: “Meu mundo caiu...”.

Ante a ausência de respostas, o marido, com um cigarro nos dedos, procurou fósforos no bolso e depois dirigiu-se ao balcão. O outro chegou à mesa com um punhado de rosas no instante em que aquele retornava.

— Então é isso?! —acusou o marido.

—Quem é ele? — perguntou o amante.

Ela continuava catatônica e não conseguiu articular palavra. Também não ouvia mais. Viu que se apresentavam, que a acusavam, xingavam. Percebeu ameaças, punhos cerrados. Mas só escutava Maysa. Levantou cambaleante e saiu derrubando cadeiras. Um carro buzinou, mas teve de frear para que ela não fosse atropelada. Ficou do outro lado da rua com o braço levantado até que um táxi parou.

Só então marido e amante se sentaram na mesma mesa em que ela estivera.

— Puxa, como foi difícil! — suspirou o marido. — É que não havia outro jeito de me livrar dela.

—Difícil para mim, né? — corrigiu o outro — que tive de conquistá-la!

Mãos em cima e pernas embaixo da mesa se entrecruzaram, e os dois sorriram aliviados, satisfeitos e apaixonados.

Comentários

sergio geia disse…
Beleza de crônica! Das boas, Albir.

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