sábado, 21 de junho de 2014

ENTRANDO PELA COZINHA >> Cristiana Moura

Aromas, sabores, os sons dos talheres e das panelas misturados à prosa em alto volume das vozes femininas. A cozinha é parte tão viva da casa! Não sei se de todas. Por certo da casa da minha infância e adolescência, perseverando na casa dos meus pais hoje e na minha. A gente não come somente a comida. Come os afetos, os prazeres, os desejos. Quantas lembranças acordam o olfato com os cheiros daquele tempero de um certo prato que aquela pessoa preparava?

Peço, agora, que você imagine os alimentos de sua infância, seus cheiros, sabores, texturas e aromas, imagens e vozes das pessoas que os faziam. Feche os olhos! Sim, eu agora fecho os meus para dar vazão à memória. Feche, por favor, também os seus!

Salivei. As memórias da cozinha da mãe e das avós me despertam todos os sentidos. De um lado, pães de queijo, pamonhas, pudins e outras sobremesas do centro-oeste — a origem materna. De outro lado, caruru, vatapá, camarões e peixes no toque do dendê do nordeste africano e o tempero sem igual da mãe de meu pai. Isso tudo se misturando à riqueza de legumes e verduras do sudeste do país, onde habitávamos, e seus hábitos iam nos habitando. No alimento, a poética ancestral do cuidar entrelaçada aos sabores gastronômicos miscigenando minha família e o país.

Tive um professor cuja casa tem a entrada pela cozinha. Construiu assim, a cozinha na frente da casa. Ele diz que é porque as pessoas gostam é de ficar na cozinha. Que quando era criança ficava era todo mundo lá. Então construiu a casa entrando pela cozinha, esse lugar que congrega as pessoas e suas histórias — temperos e contos à beira do fogão.

Ao redor da mesa, vivi e vivo os maiores e melhores momentos de comunhão familiar. Também ao redor da mesa, alguns dessabores e conflitos. A riqueza da gastronomia familiar brasileira tecida em fios de cuidar é como rede em varanda que embala um cochilo sem pretensão. Das extravagâncias natalinas ao pão de cada dia. É belo esse lugar de onde vim por tão sagrado que é! É belo esse lugar de onde vim, por tão profano que é! Amém.

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5 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Cris, agora tá explicado por que o Manu ficou daquele jeito depois de comer seus quitutes naquele pátio... :)

Cristiana Moura disse...

Olha só...
:)

Zoraya disse...

Cris, me deu uma saudade doída do meu tempo de criança, a gente reunido na cozinha, os mais velhos falando coisas que eu só entendia por alto, mas esperando os pasteis de canela que minha Avó fazia... obrigada por despertar essa lembrança.

Cristiana Moura disse...

Que lindeza de memórias Zoraya!

Cristiana Moura disse...
Este comentário foi removido pelo autor.