quinta-feira, 5 de junho de 2014

BARULHINHOS >> Fernanda Pinho



Outro dia, tentando elaborar para duas amigas o porquê de eu não conseguir parar de tomar refrigerante, saí com essa: “Ouvir o barulho de uma lata de Coca-Cola se abrindo é uma das coisas que mais me emociona na vida. Possivelmente, deixará de ser meu barulho preferido apenas quando eu tiver um filho e escutar seu choro pela primeira vez”.  Reconheço. Posso ser bastante exagerada quando quero defender meus pontos de vista. Hipérboles à parte, é verdade. Alguma coisa acontece no meu coração — estômago e papilas gustativas — quando abro a latinha.

E não somente isso. Vários outros barulhinhos banais me emocionam. Ontem tive um dia exaustivo, estava cansada e angustiada. Fiquei deitada no sofá e só voltei ao normal quando escutei o barulho de pipoca estourando na cozinha. Meu marido realmente me conhece. Alegria imediata, mesmo antes de comer a pipoca. Até agora não  lembro o motivo de estar angustiada.

E para não dizer que todos os barulhos que me emocionam têm a ver com comida, me recordo de outros. Desde sempre, me emocionei com o barulho do carro da minha mãe entrando na garagem quando ela chegava do trabalho. De criança até o último dia em que morei na casa dos meus pais, aos 28 anos.  Depois que casei, transferi a emoção para o marido. Meu coração palpita quando escuto a chave na porta.

Costumava palpitar também quando eu ouvia o aviso de mensagem no celular. Isso na época em que celular só servia para ligações e trocas de mensagens.  Hoje em dia,  são tantos aplicativos que o que me emocionava para o bem passou a me emocionar para o mal. Solução: todas as funções constantemente no silencioso.

Aliás, já pensou que maravilhoso seria se a gente pudesse colocar no silencioso tudo aquilo que nos irrita? Porque, claro, de barulhinhos maus o mundo também está cheio: buzina, fogos em dias de jogos, tique-taque de relógio na madrugada, água corrente quando você está a fim de fazer xixi e, ai ai ai, garfo arranhando o fundo do prato. Eita que me arrepio só de imaginar.


Essa vai entrar para minha lista de desejos improváveis: colocar o mundo no mudo e ouvir só o que nos faz bem.


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