quarta-feira, 4 de junho de 2014

QUE AMANHEÇA >> Carla Dias >>


Hoje a solidão cantou bem alto, saindo da boca do homem zanzando pelo centro da cidade. O homem que procura a fé concreta dos asfaltos, e a felicidade patrocinada por marca de margarina. Ele não sabe, não há como, que doar-se ao desespero pode dar em desamparo. Que o mundo gira, e às vezes tanto, às vezes, tonto.

Arrepia-se o homem de desejo, do desejo que é segredo por ele tão bem guardado, que nem mesmo ele sabe qual. Afinal, de onde vem o tal barulho que ecoa em sua alma desabitada? Deu de carregar pedra em sonho, de chamar polícia para prender os que sofrem de alegria, garantindo que eles, com seus sorrisos e promessas, partem-lhe o coração ao provar o quanto ele sofre de melancolia.

Há dias em que o homem se rói de inveja do autorretrato da lua pendurado na sala de estar. Na sala que não recebe nem pó nem vida, tampouco a presença de uma visita. A solidão colheu segredo da boca do homem adoecido pelo cansaço, por ele somente se imaginar descansando no abraço de alguém que o aceite, e aos seus tortos e direitos, aos sonhos e aos pesadelos.

Deleita-se o homem com o enfeite da cidade, essa noite fria, de profundidade de poeta enlouquecido pelo desalento. De gente esquecida no cruzamento da liberdade com a sofreguidão. Há noites em que ele berra as suas vontades ao vento, como se fossem itens da lista do supermercado. Então, abranda o pensamento, caminha a passos largos, para onde, não importa. Destinos nunca lhe encantaram como lhe encantam os caminhos.

Há vezes em que ele se liberta da sua loucura voraz, caindo na rede de proteção da tépida insensatez de ser um homem redecorando a vida com vieses, para que ela, na assimetria do sentido, possa lhe guiar por entre os medos que ele vem estocando desde que nasceu. E que assim o homem possa encará-los, vestido em terno fino, com o requinte dos vassalos conquistadores de importantes cargos, dos que não se esquecem de onde vieram e aonde desejam chegar.

Acalma-se ao contemplar o amanhecer, pois dentro dele tudo se torna silêncio. Os pensamentos se aquietam, as palavras se calam, o espírito se acomoda no corpo, o olhar se perde no horizonte. E apesar da solidão, da indelicadeza com a qual ela norteia a sua existência, o homem se apega ao rastro de esperança que um novo dia sempre deixa.


Imagem: Old Man in Sorrow (On the Threshold of Eternity) © Vincent van Gogh

carladias.com



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2 comentários:

Zoraya disse...

Carla, PELOAMORDEDEUS, de onde vem tanta sensibilidade? Que coisa mais linda!

Carla Dias disse...

Zoraya... Sei não, minha cara. Deve ser de algum ser que mora em mim e desconheço. Beijo.