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SODAMA - epílogo >> Albir José Inácio da Silva

Da varanda da casa nova, Ernesto observava o Sodama. Que destino dar ao sobrado depois das eleições? Foi arrancado de seus pensamentos quando viu as mulheres atravessando a rua e parando em frente ao seu portão. Ai, ai, ai, ai, ai! Deu confiança demais pra aquelas vadias.

— Seu Ernesto — veio correndo o empregado — as mulheres do Sodama!

— Não vou receber ninguém. Tire-as do meu portão. Use gás de pimenta e bomba moral, se necessário.

Não ficava bem a um futuro membro da Câmara Municipal receber em sua casa aquele tipo de gente. Menos ainda na véspera da eleição. Nunca se sabe de onde surgem os paparazzi. Não ia arriscar uma eleição praticamente ganha. O mínimo que esperava, depois de tudo que fizera por aquelas mulheres, é que compreendessem isso. Mas já estava acostumado com a ingratidão.

De volta ao Sodama, humilhadas, as meninas eram só desolação. Não falavam, não comiam, nem música escutavam. Deviam ter feito alguma coisa quando descobriram que Seu Ernesto não era o dono do sobrado. Na época ficaram indignadas, mas havia as dívidas, os jagunços, e não tinham aonde ir. Agora tudo estava perdido.

A discreta Deinha teve uma ideia. Recolheram quanto dinheiro tinham e mais os cartões de memória dos celulares. Deinha foi despachada pra cidade porque, além da ideia, tinha um cliente, dono de lan house, que não aceitava outra moça quando ia ao Sodama, e ela se desmanchava nos atendimentos. Um chamego, como diziam.

Seu Ernesto acordou cedo no dia das eleições, mas sem pressa. Queria chegar no meio da manhã, quando a cidade já estivesse desperta. Desejava que seu voto fosse coberto pelos jornalistas e aplaudido pelo povo.

Ocupado com cabeleireiro, alfaiate e manicure, nem notou que as meninas do Sodama saíram bem cedo para votar. Disseram a Lucão que precisavam estar de volta logo porque era feriado e a casa ia bombar.

Deinha, que ficara na lan house a noite toda entre beijos, impressões e cópias, aguardava ansiosamente a chegada das colegas.

A comitiva de três carros alcançou as primeiras casas da cidade e Seu Ernesto abriu a janela, pronto para desempenhar o enfadonho papel de homem público. Cumprimentou, sorriu e gesticulou para a senhora que estava na varanda de um sobrado. A velha lhe devolveu a gentileza levantando o dedo médio.

— Gentinha de merda! — fuzilou Ernesto. — Deixa eu ganhar que vocês vão ser tratados como merecem!

Numa esquina, olhando para o poste como a conferir o resultado da contravenção, um grupo começou a apontar para ele e rir às gargalhadas. Que diabo estava acontecendo? Parou na praça e as pessoas o xingavam e faziam gestos obscenos. Um de seus assessores foi ver do que se tratava. E voltou assombrado.

— Seu Ernesto, é o senhor... — gaguejou, mostrando uma folha de papel A4 em que se viam fotos comprometedoras do impoluto candidato nos momentos de intimidade com as meninas do Sodama.

Ernesto saiu do carro. Havia fotos em todos os postes, muros e colados por cima da propaganda política. Os transeuntes tinham nas mãos essas mesmas infâmias. Ele sacou a arma e foi contido pelos próprios jagunços:

— Calma Seu Ernesto, não vá fazer uma besteira.

Uma vaia geral foi ouvida em cada canto da praça. Velhinhas se benziam e empurravam a palma da mão, repetindo: "Vade retro, satanás!" Rumou para a delegacia a exigir providências do delegado, bem a tempo de ver Lucão sendo arrancado do camburão pelos cabelos.

As meninas tinham passado pela delegacia mais cedo. Mostraram fotos ao delegado e disseram, com um sorrisinho safado, que tinham muitas outras de pessoas importantes, inclusive policiais. Uma a uma o delegado foi atendendo as reivindicações das moças. Prendeu Lucão por rufianismo e prometeu que não mais seriam perseguidas.

Seu Ernesto recebeu apenas dois votos: seu e de sua noiva. Ela votou antes de saber das fotos, e desmanchou o noivado depois.

Seu Ernesto sacou o revólver de novo, contra seus próprios jagunços, porque também não votaram nele. Dessa vez foi contido a tapas.

Apesar do protesto das esposas, as autoridades deixaram em paz as meninas. As meninas agora estão felizes, cuidando do Sodama, e dizem que não têm mais fotos. Pelo sim, pelo não, todos preferem ficar de bem com elas.

Comentários

Parabéns pelo folhetim, Albir. Foi animador esperar quinzena após quinzena.
Zoraya disse…
Isso sim, é final feliz! Descobrimos sua vocaçao folhetinesca, Albir, agora nao dá mais para esconder, faça o favor de mostrá-la mais vezes.

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