segunda-feira, 23 de junho de 2014

O GRANDE INCÔMODO >> André Ferrer

Para que serve estudar isto? Quem nunca fez essa pergunta, nunca passou pela escola. Seja qual for a justificativa dos professores, a dúvida costuma sobreviver. De tempos em tempos, ela retorna e, invariavelmente, leva um grande número de egressos a pensar que a escola deveria oferecer respostas mais plausíveis para o mistério. Entre estes, muitos até carregam uma ideia negativa da escola. Tudo porque os professores não teriam conseguido diminuir essa grande impressão de vazio enquanto trabalhavam suas disciplinas. Outros, no entanto, percebem algo extraordinário. Pode ser, por exemplo, que um biólogo jamais volte àqueles capítulos mais penosos da Geometria, mas compreenda com profundidade e respeito que a observação do mundo microscópico dificilmente seria possível sem um ramo da Física chamado Óptica e, antes disso, a Geometria.

Determinadas perguntas são mais importantes como perguntas do que como perguntas sucedidas, obrigatoriamente, de respostas. Parece maluquice. Felizmente, contudo, existe uma disciplina capaz de suprir esse vazio experimentado pelos estudantes. Depois de um longo período no exílio, ela está de volta às grades escolares. Refiro-me à Filosofia.

Qualquer bom professor de Filosofia espera o momento em que um aluno queira saber o valor utilitário dos pré-socráticos ou dos pensadores alemães da segunda metade do século XIX. Ora, se a pergunta vier com uma pitada de desafio, então, nem se fala! Um bom professor de Filosofia sabe que o pensamento não é privilégio de um panteão de homens notáveis. Ele sabe que a rotina de aulas, quase sempre trilhada sobre uma linha de tempo — sim, o programa de História da Filosofia a ser cumprido segundo o calendário letivo —, uma hora ou outra, será brilhantemente interrompida pela manifestação da qualidade definidora do gênero humano: o pensamento. Então, o bom professor jamais deixará escapar essa oportunidade.

A ideia de que “filosofar” é um ato especial demais para alunos é tão nociva quanto aquela ideia que define Filosofia como uma atividade exclusivamente idealista. E o culpado disso é um pensador chamado Platão. Graças a ele, alguns professores creem cegamente no divórcio entre o mundo real (prático) e o mundo das ideias. Dá para imaginar o que esse grupo de professores responde quando um aluno pergunta sobre a utilidade da Filosofia?

Muito depois da época de Platão, na Alemanha, a crise do idealismo balançou a Filosofia.  Entre os críticos dessa tradição também houve uma bifurcação. Marx dobrou à esquerda. À direita, Schopenhauer e Nietzsche. Bem, de qualquer maneira, uma forte postura crítica se afirmou contra o pensamento dominante originado na Grécia Antiga. Por isso, os filósofos alemães do século XIX são tão importantes: o seu grande incômodo levou a perguntas e a uma crise, que levou a mais perguntas e reflexão.

O combustível da Filosofia é a dúvida. Para refletir sobre si e se colocar no mundo sensível, o homem conta com esse motor desde o primeiro pulsar da consciência. Então, até quando haverá perguntas a respeito da utilidade da Filosofia ou de qualquer outra disciplina? Enquanto existir o ser humano. Eu espero.

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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Me fez voltar no tempo, quando cheguei até a pensar em cursar Filosofia. :)

Zoraya disse...

Nossa, eu também, e tudo por conta de um professor sensacional que tive no colégio, que falava de e ensinava Filosofia com uma alegria, um desassombro, era maravilhoso.