sábado, 24 de março de 2018

OLHOS PERDIDOS >> Sergio Geia





Encontrei aqueles olhos perdidos assim, do nada, raio cortando o céu, virei e pronto: estavam lá. Encontro doce, eu não desviava; nem ela. Parecia brincadeira de estátua, congelamos nossos olhares. Eu fiquei pensando no que ela estaria pensando. Ela, talvez, pensasse o mesmo, no que aquele sujeito de cabelos brancos estaria pensando; ou fazendo. Nesse mundo veloz, parar e olhar, apenas olhar, é perda de tempo. E, de repente, dois olhares se param, se encontram, se cruzam. Será que me viu velho?
Havia garoa; fina. Havia sons: passarinhos, latidas, carros, uma conversa longe, voz de criança. As pessoas na calçada caminhavam, seguindo seus rumos, suas vidas, alheias àquele encontro, àquele cruzamento de olhares.
Não. Deixe-me corrigir qualquer pensamento enviesado seu, assim ele não cresce, não ganha estatura, e você, não pensa mal de mim. Sim, porque as pessoas pensam mal, o tempo todo. O mundo pensa mal, e nem sei se é mal, no caso, mas há sempre uma tendência de se catar a verdadeira intenção escondida, como se houvesse algo escondido. Alimentam o desejo de que o outro deseje, de que a outra deseje. Não são desejos. Apenas um encontro: eu, olhando a chuva, a mangueira balançando de vento, ela, olhando o monstrengo de concreto que a olha de cima, e tcham, olhares se cruzam. Apenas isso.
São telhados, varandas, quintais, garagens. Vez em quando o homem chega de moto, a moça entra num rancho, crianças brincam, jogam futebol, mas olhos perdidos, docemente perdidos, que se acham em mim (é o que parece), me consumindo, derretidos, alheios, como se não estivessem aqui, mas longe, Paris, Nova York, Tóquio, alheios a tudo, presos em mim, alheamento feitiço, não, eu nunca vi. Me enfeiticem, olhos perdidos. Também viajo na sua, como numa história do Hatoun.  
Quatorze anos? Quinze? Por aí. Quatorze, quinze, alguns anos, talvez vinte e seis, trinta e oito, não sei, não lembro. Aliás, mais esqueço que lembro, ultimamente; troco nomes. Historinhas infantis, dos três porquinhos, conhece?, da casa de sapê, de pau a pique, de tijolos, do Bolinha, Bolota e Bolão. João Cláudio, ou Maria Alice tinham o disquinho. Nunca esqueci; não esqueço o sopro do Lobo Mau fazendo voar casinhas. Mas também não sei por que falo isso; talvez, a ideia me vem agora, porque o seu olhar perdido me evoca o ingênuo, o frescor, a leveza de outros tempos. Careço de oxigenação, preciso oxigenar a vida, necessito do seu olhar.
No seu tempo, eu estava lá, ouvindo os três porquinhos. Uma ingenuidade incrédula. Talvez você também possa estar, não? Vinil pequeno, árvore ao fundo (Lobo Mau à espreita), Bolinha e Bolota brincando, Bolão assentando tijolos. Tem uma vitrola aí? Talvez você ache no You Tube. Você nem quer saber, não é? História bobinha.
Você agora o desvia, olha para baixo, de lado, enxerga alguma coisa. Surge um cachorro (você tem um vira-lata), uma mulher (mãe?). Ela recolhe roupas do varal, conversa, você responde. Depois ela entra carregada de roupas, o cachorro dá umas voltinhas, vai para lá e para cá, você passa a mão nele, faz um carinho, ele entra balançando as orelhas, parece não gostar do aconchego, e então, você torna o olhar em mim.
Parece fazer perguntas, sim, é nítida a expressão interrogativa. Num canto de seus olhos, bem escondido, vejo, parece haver um pedaço de pena, uma piedade de mim. Ó, anjo meu, não careço de sua piedade. Sim, sou um homem sozinho, em termos. Mas a solidão, aprenda isso, pode ser uma ótima companheira. Um homem só nunca está sozinho, pois há a solidão, e a solidão, às vezes, é mais quente que qualquer companhia de carne e osso. Se é bom? Depende. Se você se entender com ela pode ser ótimo.
Ok, ok, satisfaço sua curiosidade, gracinha: é que vez em quando gosto de ficar assim, olhando, olhando. Como não fumo — e fumar deve ter seu lado divertido porque você acende um cigarro e fica em qualquer lugar, numa sacada, na calçada, na frente do bar, olhando, apenas olhando —, pego meu uísque e paro, bebo, olho, às vezes surgem coisas, do nada, de repente, um olhar.


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7 comentários:

paulo pereira disse...

Muito bom. Gosto dos seus devaneios.

Regina Amaral disse...

Muito Bom!! Viajei!

Wilson disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Wilson disse...

Gosto de poesia ou crônicas "pegáveis", introspectivas e como sempre com um bittersweet. Mas só isso não basta, há de existir sentimento e competência. O que você escreveu tem tudo isso. Magnífico!

sergio geia disse...

Regina, Paulo, Wilson, grato pelos comentários. Devaneios sim, Paulo, muito rsrs, uma viagem deliciosa Regina, introspectiva e sentimental, Wilson, na mosca.

Zoraya Cesar disse...

Sergio, que beleza! Quanta beleza! Fiquei até emocionada. Amo suas crônicas, você sabe. Mas essa... essa... é de tal beleza que nem sei o que dizer, só ficar me repetindo, apaixonada.

sergio geia disse...

Poxa, Zoraya, agora eu também me emocionei com palavras tão carinhosas. Obrigado mesmo, do fundo do coração, suas palavras me enchem de alegria. Grande beijo!