sexta-feira, 23 de março de 2018

OUTRA MALFADADA AVENTURA DO DR. MÁRCIO >> Zoraya Cesar


Se tinha uma nódoa no caráter do Dr. Márcio era a inveja. Inveja verde, musgosa e corrosiva, direcionada a um único alvo: o cunhado. 

Pouco mais velho que ele, o cunhado sempre vivera intensamente. Festas, viagens (você conhece alguém que já foi a Ulaanbaatar, capital da Mongólia? O cunhado foi. Pois é.), mulheres – ricas, pobres, de qualquer idade; se fossem desejáveis e interessantes, entravam no jogo. Jogo! Jogava, bebia, brigava, fumava e, Dr Márcio desconfiava fortemente, não apenas cigarros comuns.

Recém passado dos 60 (mas ainda trabalhando), Dr. Márcio era íntegro e confiável, quase um asceta, que nunca se embebedara, nunca se metera em ilícitos e levava uma vida extremamente rígida. E, até o humilhante episódio da boneca inflável, nunca se metera em confusões. 

"A vida é muito injusta. Por que esse inútil, sem emprego fixo, sem responsabilidade e sem noção tem uma vida tão mais interessante que a minha?", lastimava-se. Invejava o savoir vivre do cunhado e estava em crise. Chegara àquela idade em que o homem olha pra trás e se pergunta: e agora? 

Queria, de qualquer maneira, fazer algo diferente, condenável, aventureiro, que sacudisse sua vida modorrenta e previsível. Algo que o fizesse se olhar no espelho e dizer: “Márcio, você é um danadinho, hein?

A ocasião faz o ladrão, dizem. Sua esposa, cunhado, sogros passariam o final de semana fora da cidade. Ele, sob o pretexto de ter processos a estudar e um amigo a encontrar, não foi. 

Pretendia ir a um nightclub para homens, indicação de um amigo do escritório: “Pode ir que não tem erro. O Jeremy’s tem classe." Era, na verdade, quase um inferninho, um lugar para cavalheiros de fino trato, que estivessem a fim de uma noite agradável, com boa música, boa bebida, boa conversa com homens de negócios, e, se assim o quisessem, com mulheres bonitas.

Passou a semana que antecedia ao grande evento numa excitação comparável à da criança em véspera de Natal. Comprou roupas modernas; pediu ao barbeiro, Seu Moisés, um novo corte de cabelo; e deixou a barba por fazer. Tudo para aparentar jovialidade e despojamento. 

Dr. Márcio não pensara em nada muito radical; queria, tão somente – oh, quanto queria –, cometer um pecadilho, ter um segredo para chamar de seu. Nem que fosse apenas isso: mentir para a esposa; beijar uma mulher desconhecida.

A mais que ansiada noite chegou. 

O ambiente era elegante, sem dúvida. Homens bem vestidos circulavam com desenvoltura, conversando e rindo. As poucas mulheres eram lindas e glamorosas. Tímido, Dr. Márcio sentou-se, acoitado, a um canto mais escuro. 

Depois da primeira dose de whisky sua coragem voltou. Resolveu que beberia todas, até cair, faria escândalo, dançaria sobre a mesa, seria expulso!

Na segunda rodada já não sentia sabor de coisa alguma e a língua estava pastosa. Foi com olhos enevoados que percebeu a aproximação da jovem alta, forte, de cabelos amarrados em elegante coque no alto da nuca, envolta num vestido fúcsia. Dr. Márcio, que nunca tivera fetiches, passou a ter um ali mesmo, por mulheres grandes e bem torneadas. 

A moça era agradável e encantadora. Dr. Márcio, enlevado, congratulava-se por sua própria audácia. Bêbado, numa boate, conversando com uma linda mulher. Para completar sua fantasia, só faltava um inocente beijo, para guardar na lembrança...

Acordou no hospital, sem dinheiro, cartão e sem as roupas finas que comprara. Nu, a bem da verdade, não estava. A moça e seus comparsas tiveram a duvidosa caridade de colocar-lhe o vestido fúcsia. (E não é que coube direitinho?).

Ao seu lado, a esposa e o cunhado. Uma o olhava com mal contido desprezo. O outro chorava. Não de comoção, mas de rir.

Aquela criatura podia ser uma bisca, realmente. Pois como não sentir pena de um sessentão conservador que desejava apenas sentir o gostinho de andar um pouco on the wild side? E que fora enganado, drogado, roubado e abandonado na sarjeta em sua primeira aventura fora de casa? 

Depois de velho, deu pra tarado, mentiroso e besta, né? Sibilou a esposa por entre os dentes. Pois saiba que pra casa você não volta. 

Dr. Márcio quase teve uma síncope, sorte já estar hospitalizado. 

Passada a raiva inicial, porém, a esposa o perdoou. Afinal, ele era um bom marido, um homem digno. E em boa situação financeira. Ela entendia que Dr. Márcio passava pela crise da avançada-idade, mas aquilo não podia ficar assim, ele tinha de ser punido de alguma forma. Até porque fora flagrado usando um vestido lindo, como ela mesma sempre quisera, mas nunca tivera coragem de usar. 

A condição imposta para o retorno ao status quo ante seria simples, mas, para ele, extremamente dolorosa: durante o mês que a mulher passaria em um cruzeiro com as amigas ele deveria morar com os sogros... e o cunhado.

Dr. Márcio cumpriu sua pena sem reclamar. Só no íntimo, bem lá no fundo, lamentava não lembrar sequer se fora beijado ou não...



Take a walk on the wild side, Lou Reed







Partilhar

7 comentários:

Anônimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Unknown disse...

Fala sério... barba por fazer pra um sesentao tá longe de aparentar jovialidade kkk Mas a mulher é má... Ela mesma ja sabe que os sogros e o cunhado não nao flores que se cheiram, pra julgar isso como castigo pro marido...fiquei com pena do doutorzinho rs

Ana Luzia disse...

Ah, gente, fiquei com pena do coitado... quem não merece uma noite de selvageria e luxúria?

Zô, vc precisa dar a esse pobre homem uma chance de realizar suas fantasias!!! o coitado só se ferra, rsrs

Marcio disse...

A: - E aí, cara! Já leu a crônica que a Zoraya publicou hoje?
B: - Não! Quantos morreram, dessa vez?
A: - Não morreu ninguém, nessa crônica. Teve um pangaré que passou uma vergonha enorme, talvez ele até preferisse morrer, mas a Zoraya é tão cruel que o manteve vivo - ao menos no sentido biológico da palavra.
B: - Deve ser efeito da intervenção federal.
A: - E isso por acaso reduziu a criminalidade?
B: - É mesmo. Nada a ver. Mas nada impediria o animus necandi da Zoraya. Sabe que ela é uma bruxa? Seus crimes são perfeitos, não deixam rastros, nem entram na estatísticas de crimes.
A: - Porra, cara, essa sua ingenuidade é digna de um escoteiro. Você confia em estatísticas de crimes?
B: - Vamos voltar para o texto da Zoraya. O idiota deve ser o Dr. Marcio, aquele que teve o nome inspirado em um dos comentaristas dos textos da pérfida autora, não?
A: - Ele mesmo. Dessa vez, ele se meteu com um traveco. A Zoraya não contou isso no texto, mas eu juro que é traveco, pela descrição do personagem. O Dr. Marcio diz que não lembra, mas eu acho que ele está tentando se esquecer da noite com o traveco.
B: - Pô, vou acessar logo esse blog. Esse texto deve estar hilário.

Anônimo disse...

Kkk. Li os dois, Lady. To passada. Tem gente que não nasceu pra ter pecado, só castigo!

Anônimo disse...

Sempre gostamos quando homens idiotas e imaturos se dão mal, hehe...
Adorei. É adorei o comentário do colega Márcio!!

Zoraya Cesar disse...

Unknown 1 - Dr. Márcio é digno de pena mesmo. Como todo invejoso, aliás. A mulher não é má! Até o perdoou kkkk

Aninha Luzia - hahaha, vc é mesmo uma pessoa boa. Acaba até por me convencer.

Márcio - vc é testemunha do quanto ri com seu comentário - como sempre, generoso. Seu comentário ficou melhor q a história hahaha

Anônimo 2 - pois é! deve ser karma
Anônimo 3 - eu também, eu também...